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Aposta em corte da Selic perde força a uma semana de Copom

09/05/2018

Aposta em corte da Selic perde força a uma semana de Copom


Faltando uma semana para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), investidores colocam em dúvida um novo e último corte da taxa Selic e adotam uma postura mais defensiva diante da persistente alta do dólar e das incertezas no exterior.

A cautela é tamanha que alguns profissionais temem até a antecipação da retomada do ciclo de elevação de juros, que era projetada só para meados do ano que vem.

Para o curto prazo, a probabilidade de queda de 0,25 ponto percentual da taxa básica, a 6,25% ao ano, recuou de cerca de 94% em meados de abril para 61%.

"A certeza do mercado foi abalada pela alta global do dólar, que ainda não deu sinais de reversão", diz Rodrigo Borges, diretor de renda fixa da Franklin Templeton no Brasil. "E a cada ponto que o dólar sobe, aumenta a dúvida sobre a atuação do Copom", acrescenta.

O Bank of America Merrill Lynch (BofA) é uma das grandes instituições financeiras que já assumiu uma visão mais cautelosa. Agora, em vez de um corte de 0,25 ponto da Selic, espera manutenção da taxa em 6,50%, na próxima reunião. E o mercado também teria leitura semelhante se o Copom não tivesse declarado sua intenção de cortar a taxa, destaca o BofA.

De acordo com a ata da última reunião, esse estímulo adicional mitigaria "o risco de postergação da convergência da inflação rumo às metas". Essa mensagem teria sido reafirmada, inclusive, na sexta-feira passada pelo diretor de Política Econômica do BC, Carlos Viana, em encontro com representantes do mercado financeiro.

Viana teria dito, segundo participantes dessa reunião, que a alta do dólar não aumenta, necessariamente, a inflação projetada pelo Copom em seu cenário básico.

Só que agora o balanço de risco, na avaliação de especialistas, parece ter se deteriorado pelas incertezas no exterior, que vão desde o aperto monetário nas economias desenvolvidas até os riscos geopolíticos --- quadro que tem forte impacto sobre a cotação do dólar no mundo.

Ainda não há uma onda de revisões para a decisão do Copom da semana que vem. Mas deve crescer a discussão sobre a perenidade do juro baixo. A Acrefi, entidade que representa as instituições de crédito, financiamento e investimento, considera revisar a projeção para a trajetória da taxa Selic no próximo ano, no caso de deterioração do quadro externo.

O cenário-base da entidade prevê novo corte de 0,25 ponto na Selic neste mês e manutenção da taxa até o segundo trimestre de 2019. "Mas, mesmo esse quadro já está mais incerto", afirma Nicolas Tingas, consultor econômico.

O mercado de títulos públicos já tem reagido a esse quadro de dólar mais forte. A chamada inflação implícita embutida nas NTN-Bs, papéis atrelados ao IPCA, intensificaram a alta nos últimos dias. O título com vencimento em agosto de 2020 projeta uma inflação -- calculada pela diferença entre o juro do papel e a taxa do DI de prazo equivalente -- na casa de 4,60%, acima da meta estabelecida para este ano, de 4,50%.

"Por mais que a inflação corrente esteja bem-comportada e o hiato do produto continue alto, o mercado já precifica impacto da alta do dólar na inflação futura", afirma Marcos De Callis, estrategista da Votorantim Asset.

Até por isso, os juros futuros mostraram altas mais acentuadas na sessão da terça-feira, enquanto o dólar se aproximava cada vez mais de R$ 3,60. O DI janeiro de 2020, por exemplo, subiu 14 pontos-base, a 7,270% ontem.

"O sentimento é de que a alta do dólar veio para ficar e pode até piorar um pouco mais", diz Matheus Gallina, da Quantitas. Nesse sentido, os investidores reduzem a exposição nos contratos de curto prazo, acrescenta o especialista, diante do receio de que o câmbio impacte a percepção de risco e as decisões do Copom, por mais que a inflação corrente ainda esteja bem-comportada.

Com a alta do dólar, também as expectativas de inflação pararam de recuar, ainda que o cenário de preços continue favorável ao consumidor. A estimativa dos economistas para o IPCA de 2019 foi mantida em 4,03%, conforme os números do último Boletim Focus de segunda-feira, em mais uma semana sem melhora nas projeções.

"O mercado está dando uma azedada, o câmbio não para de piorar e isso coloca pressão na curva de juros", diz o estrategista Fernando Ferez, da Renascença. "A Selic pode até cair mais na semana que vem, mas também tem o risco de que o Copom precise subir taxas mais rapidamente do que previa", acrescenta.

Por outro lado, muitos analistas ainda se voltam para os fundamentos da economia antes de desenhar um cenário mais negativo para os juros. "O Brasil não possui fragilidade externa, a inflação está muito abaixo do centro da meta e a ociosidade da economia tende a limitar o repasse da moeda para os preços", aponta o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato. Ele mantém a projeção de corte da meta Selic, a 6,25%, na semana que vem. (do Valor Econômico)





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