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Arrojado, Pedro Guimarães tem a missão de encolher a Caixa

07/01/2019

Arrojado, Pedro Guimarães tem a missão de encolher a Caixa


No início dos anos 2000, o carioca Pedro Guimarães era um analista de ações que cobria o setor bancário. Ainda em começo de carreira, assinava alguns dos relatórios mais contundentes entre seus pares e aos quais procurava dar um tom autoral.

Num deles, nomeou os principais bancos brasileiros com paródias de títulos de músicas dos Beatles. O Bradesco, então líder entre as instituições privadas e um grande consolidador no mercado, era chamado de "I Wanna Hold Your Bank".

O Itaú era o "Strawberry Fields Forever?" (com interrogação) e o analista questionava a capacidade do banco de manter sua elevada geração de lucro.

Primeiro no finado Bozano, Simonsen e depois no Santander, enquanto outros colegas eram mais contidos, Guimarães, que hoje assume a presidência da Caixa Econômica Federal, aos 47 anos, já não escondia uma personalidade arrojada.

Sua missão à frente do banco estatal será desmembrar e abrir o capital de alguns negócios lucrativos, como a área de cartões, e encolher a Caixa.

Ex-sócios e profissionais com os quais cruzou durante sua carreira comentam sobre seu empenho e determinação, ao mesmo tempo em que usam adjetivos como "controverso", "intenso" e "difícil" para se referir ao seu gênio. Desafetos que colecionou lembram de bate-bocas e escândalos e referem-se a ele de forma bem menos elogiosa.

Pelo Santander, trabalhou na privatização do Banespa, arrematado em 2000 por R$ 7 bilhões pelo banco espanhol. De lá para cá, se especializou cada vez mais no setor financeiro. Foi analista de bancos no ING e também nessa função chegou ao Banco Pactual justamente quando o mercado de capitais brasileiro renascia.

Lá, foi responsável por levar uma porção de bancos médios à bolsa. Era ele quem elaborava as teses de investimento para convencer o mercado e, com isso, colecionava elogios dos clientes banqueiros que levantavam centenas de milhões dos investidores com sua ajuda.

Algumas dessas instituições entraram em dificuldades anos depois e deixaram a bolsa. "Se foi ruim para o investidor é uma coisa, mas deu certo para os bancos que precisavam captar", diz um executivo de banco. Outras operações tiveram desempenho positivo duradouro, como as seguradoras Porto Seguro e SulAmérica.

Quando o suíço UBS comprou o Pactual no Brasil, em 2006, e trouxe seus próprios analistas para o time, Guimarães foi deslocado para a área de banco de investimentos.

Em 2009 juntou-se a outros ex-executivos do Pactual que fundaram a Plural Capital, depois transformada no banco Brasil Plural. Foi de lá que se desligou agora para assumir o cargo no governo, a convite do súper ministro da Economia, Paulo Guedes.

Guimarães conheceu Guedes há dez meses, quando apresentou suas propostas para destravar valor em empresas estatais, especialmente na Caixa. Ele já tinha apresentado um programa parecido a Joaquim Levy, quando esse era ministro da Fazenda.

Antes mesmo de começar a transição entre governos, os sócios no Plural pouco viam Guimarães nos últimos meses. Confiante há um ano de que Jair Bolsonaro seria eleito, o executivo se engajou muito cedo na elaboração de propostas e foi se afastando do dia a dia da instituição.

Em 2013, no Plural, Guimarães realizou uma das mais bem sucedidas ofertas iniciais de ações de sua carreira, a da BB Seguridade, o braço de seguros do Banco do Brasil. "Enquanto analistas de outros bancos não enxergavam tanto valor no negócio, o Pedro acreditava que a BB Seguridade valia mais que o banco. Ele comprou essa briga e estava certo", lembra um colega. Foi um dos maiores IPOs brasileiros até hoje e um caso de sucesso.

A operação ajudou a consolidar a fama de que Guimarães sabe como "destravar" valor escondido de bancos públicos. "Ele foi o primeiro analista a descobrir virtudes no Banco do Brasil", afirma um ex-presidente do banco federal.

"Ele é um apaixonado por esse tema dos bancos estatais", diz um ex-colega. "É um bom nome para desmontar a superestrutura criada na Caixa pelos governos do PT com o objetivo de concorrer com os bancos privados", diz um antigo chefe, que, no entanto, faz uma ponderação. "A dificuldade é que ele é dado a rompantes."

O mesmo colega que lembra o caso da BB Seguridade cita que na oferta de ações do Santander, em 2009, Guimarães comprou muitas brigas porque achava que o papel valia mais.

"Naquele caso ele estava errado, mas brigou com todo mundo do mesmo jeito." Para Guimarães, a operação do Santander é uma referência. "Foi a maior operação em que já trabalhei e foi o maior re-IPO do Brasil", diz ele.

"O Pedro não tem tato ao defender suas convicções. Por isso se desentendeu com boa parte das pessoas com as quais fez operações ao longo dos anos", reconhece um ex-sócio. "Às vezes ele está certo, às vezes não."

Um dos últimos trabalhos no Plural foi a oferta de ações do banco mineiro BMG, da qual ele se afastou antes da reta final. Analistas dos demais bancos do sindicato contratado achavam que a operação não seria bem-sucedida num mercado volátil, mas Guimarães insistia para que fossem adiante.

A operação acabou cancelada em 18 de dezembro, na véspera da sua conclusão. "A maioria dos bancos só quer levar uma operação adiante quando o mercado está de boca aberta. Uma das virtudes dele é acreditar que é possível convencer o mercado", diz um ex-sócio.

Em 2011, já como sócio da Plural Capital, que depois viraria banco, Guimarães quis passar para o outro lado do balcão. Em vez de levar empresas de terceiros à bolsa, tentou vender um negócio seu a investidores.

Idealizou e criou a holding de turismo Brasil Travel, que reunia 34 agências, operadoras, sites e casas de câmbio, de olho em uma oferta inicial de ações bilionária a ser realizada em 2012. A fórmula consistia em consolidar rapidamente um setor fragmentado e vender ao mercado a ideia de um grande negócio com potencial de seguir crescendo.

Guimarães comprou pequenas empresas espalhadas pelo país, com a promessa de pagamento composto por ações da holding e dinheiro que seria levantado no IPO.

"Seremos a maior empresa do segmento de turismo do Brasil e da América Latina", prometia o prospecto preliminar da oferta. Além de fundador da Brasil Travel, o executivo era o seu principal acionista e também o presidente do conselho.

Mas os investidores acabaram rechaçando o projeto, com receio da excessiva fragmentação societária, e o IPO foi cancelado por falta de demanda. Os donos das agências não gostaram e a holding desidratou com a debandada gradual.

"Alguns dos donos de agência se sentiram de certa forma enganados por terem embarcado em um projeto que o Pedro tinha certeza de que daria certo e acabou gerando só desgaste e custo", diz um dos ex-acionistas da Brasil Travel. Com o desmantelamento da empresa, dois escritórios de advocacia de São Paulo dizem que tomaram calote.

De família simples, Pedro Guimarães formou-se economista pela PUC do Rio, fez mestrado pela FGV e é Ph.D em Economia pela Universidade de Rochester, instituição privada que fica na cidade de mesmo nome ao norte de Nova York. "O Pedro cresceu muito com o próprio esforço", diz um executivo do mercado financeiro que tem relação de amizade com Guimarães.

Duas pessoas dizem que o executivo é acostumado a uma alta produtividade, trabalha muito e chega a fazer jornadas de 16 horas. Preveem que isso possa lhe trazer choques culturais com o funcionalismo da Caixa. "Ali ninguém recebe bônus e ele vai querer resultados. Vai ser difícil conseguir que as pessoas trabalhem com a mesma paixão que ele", diz um ex-colega.

Logo depois de sua nomeação para a presidência da Caixa, Guimarães já começou a sofrer resistências internas. A Associação Nacional dos Auditores Internos da Caixa Econômica Federal divulgou nota em que expressou "imensa preocupação" com sua indicação.

O texto, de 23 de novembro, mencionava incompatibilidade e um suposto conflito de interesses, já que o Plural é credor na recuperação judicial da Ecovix, da qual a Caixa também é credora.

Citando o fato de que o Plural foi gestor do fundo FIP Florestal, que recebeu investimentos da Funcef (fundo de pensão da Caixa) e é investigado na Operação Greenfield, o texto dizia que sua indicação é "temerária e suspeita" e criticava ainda os "interesses privatistas" do executivo.

As resistências certamente se somarão à inexperiência de Guimarães como gestor. Como analista, sempre trabalhou sozinho. Chegou a ter uma equipe reduzida quando se tornou responsável pelo investment banking do UBS Pactual.

"Ele é um profissional que estrutura operações de mercado e não um gestor de grandes instituições financeiras. Será um desafio", comenta o presidente de um banco.

"Gerir um bancão público cuja estratégia seja fazer uma expansão de crédito agressiva com certeza não é o ambiente de conforto dele", diz outro executivo. "Mas como na Caixa a ideia é desmembrar áreas de negócios e vendê-las, pode dar certo." (do Valor Econômico)





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