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As várias comércio-chanchadas do presidente Donald Trump

29/08/2018

As várias comércio-chanchadas do presidente Donald Trump


A economista, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics e professora da Johns Hopkins University, a brasileira Monica de Bolle lembra, em coluna publicada ontem em O Estado de S. Paulo, que não houve acordo com a Coreia do Norte para a desnuclearização do país, apesar do alarde.

Não houve acordo sobre a renegociação do tratado comercial entre a Coreia do Sul e os EUA -– o Korus –, apesar do estrépito. Na mesma linha, não há acordo concreto entre os EUA e o México a respeito do Nafta -– o tratado comercial da América do Norte que Trump afirmou várias vezes ser o pior de todos os tempos –-, embora o barulho dessa semana esteja quase ensurdecedor.

Na segunda-feira, a agência responsável pelas negociações comerciais dos EUA, o USTR, disse ter alcançado um “acordo preliminar em princípio sobre as renegociações do Nafta”.

Peço ao leitor que pare por alguns minutos para considerar a frase entre aspas acima. Acordo preliminar em princípio soa similar ao desenvolvimento de novas tecnologias para estocar o vento. Acordos preliminares não são acordos finalizados. Acordos preliminares em princípio estão ainda mais longe de qualquer ideia de conclusão. Qualquer acordo preliminar entre México e EUA não é um acordo sobre o Nafta, tratado tripartite que exige, por definição, a participação do Canadá.

O Canadá está no banco de reservas desde que Trump resolveu comprar briga com um de seus aliados políticos e econômicos mais longevos não se sabe muito bem por quê.

Talvez porque não goste das meias de Justin Trudeau, talvez por outra razão qualquer que escape à lógica cartesiana. A necessidade de trazer o Canadá para a mesa para que haja alguma chance de encerrar as negociações foi salientada várias vezes pelas autoridades mexicanas.

Contudo, Trump e sua trupe decidiram ignorar sumariamente essa necessidade, reafirmando que haverão de impor mais tarifas sobre exportações canadenses caso o vizinho do norte se negue a participar da mais recente comércio-chanchada.

O acordo preliminar em princípio com o México tampouco trata de todos os temas –- são muitos –- para modernizar o Nafta. Nas áreas de comércio digital e meio ambiente, o acordo preliminar em princípio está alinhado ao que os três países negociaram quando o Acordo Transpacífico (TPP) que abarcaria 11 nações estava prestes a ser ratificado pelos membros.

O ato de rasgar o TPP foi uma das primeiras medidas de Trump logo que assumiu a presidência. A cena do recém-empossado mandatário, mostrando para os repórteres a assinatura no decreto que matou o acordo ainda está fresca na memória de quem viu no gesto a mais completa estupidez.

Ao alienar os EUA de seus parceiros, Trump abriu flanco para que os demais membros renegociassem vários dos termos, inaugurando o CPTPP – sigla para “Comprehensive and Progressive Agreement for Trans-Pacific Partnership”. Canadá e Japão lideraram o processo.

Mas voltemos ao acordo preliminar em princípio. Nele está previsto que 40% a 45% dos trabalhadores de empresas que exportam para os mercados da América do Norte recebam salário mínimo de US$ 16 por hora. À primeira vista pode parecer uma excelente oportunidade. Contudo, não há acordo comercial no mundo que possa impor na marretada um piso para o salário mínimo de qualquer país, visto que essa é uma decisão soberana.

Ademais, não há qualquer mecanismo que force as empresas a seguir a regra – por óbvio. As novas regras de conteúdo local do acordo preliminar em princípio provavelmente acabariam por aumentar os custos dos fabricantes de veículos e das montadoras, como revela análise recente do Peterson Institute for International Economics.

Por fim, difícil é imaginar como finalizar um acordo com o México quando as tarifas sobre aço e alumínio recém-impostas continuam em vigor. Há também o detalhe de que qualquer acordo bilateral com o México não é visto pela lei americana como parte do Nafta, o que portanto necessitaria de aprovação do Congresso que, de modo geral, é refratário a alienar o Canadá.

Em resumo, tudo o que foi anunciado até agora parece nada mais do que fumaça política. Trump precisa dizer para sua base que renegociou o Nafta e cumpriu a promessa de campanha antes das eleições legislativas em novembro.

Peña Nieto quer deixar um legado. López-Obrador está confortavelmente assistindo a tudo isso pois não-acordos não levam seu nome ou selo. Aguardemos as próximas comércio-chanchadas. (de O Estado de S. Paulo)





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