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Bancos estudam projeto para alterar uso do cheque especial

08/03/2018

Bancos estudam projeto para alterar uso do cheque especial


Diante da pressão da sociedade e do Banco Central (BC), as instituições financeiras começaram a desenhar um projeto para não deixar os clientes no cheque especial — cujos juros estão em 324,7% ao ano — por mais de 30 dias.

Segundo fontes ouvidas por O Globo, a proposta que está na mesa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e já foi levada ao BC é transformar o saldo negativo automaticamente em um crédito pessoal, que tem taxa de 122,6% por ano, após 30 dias de uso do cheque especial. O cliente, porém, terá de autorizar previamente essa transação.

De acordo com técnicos do setor, a medida ainda não está em sua forma final. Uma dúvida é se seria possível manter ativo ou não o limite de cheque especial do correntista. Argumenta-se que o brasileiro tem a cultura de já contar com aquele dinheiro em sua conta. Mas há quem insista que chegou o momento de mudar isso.

Houve várias divergências entre os bancos sobre o modelo. Alguns insistiam que a melhor saída era apenas investir em ações pesadas de educação financeira. As instituições chegaram a cogitar fazer o anúncio ainda neste mês, apenas com o programa educacional.

Porém, houve quem defendesse que o momento atual, em que a taxa básica de juros (Selic) está em seu menor patamar histórico — 6,75% ao ano —, é o ideal para fazer uma mudança mais significativa.

Quando a atual diretoria do BC assumiu, em meados de 2016, os juros básicos da economia estavam em 14,25% ao ano. Apesar disso, naquela época a taxa do cheque especial estava mais baixa: 311,48% ao ano.

Desde então, a inadimplência não sofreu grandes alterações. Passou de 14,9% para 15,2%. Ou seja, ficou muito mais barato para os bancos captarem, mas, mesmo assim, eles passaram a cobrar de clientes com orçamento apertado.

Até agora, o consenso é de que a mudança não pode ser obrigatória, como a que o BC fez no uso do cartão de crédito, com renegociação obrigatória, no ano passado. A ideia é fazer com que o cliente opte por transformar o débito em crédito pessoal.

“Ninguém deve ser obrigado a aderir. Os bancos devem explicar direitinho como vai funcionar”, disse uma fonte ao par das discussões.

Atualmente, os brasileiros estão no vermelho em R$ 24,4 bilhões. Em janeiro, houve um salto de 12% dessa dívida, pelo fato de ser um mês com muitas contas, como impostos e material escolar. No entanto, nos últimos 12 meses, o estoque de endividamento caiu 4,5%.

Sem vantagens. O problema, para quem não está acostumado a ficar pendurado todos os meses no cheque especial, é que a mudança automática pode pesar mais no bolso.

Se a pessoa passasse apenas um mês no vermelho, pagaria 12,8% ao mês de juros sobre a quantia. No entanto, se esse valor for parcelado, a carga de juros do crédito pessoal é, em média, de 122,6% ao ano. Neste caso, não valeria a pena dar a autorização ao banco.

O foco da medida é o cliente que vive atolado no cheque especial. Quem fica R$ 1 mil no cheque especial por um ano acumula uma dívida de R$ 4.109,89 se não movimentar mais a conta.

“Há ainda um contingente alto de pessoas desempregadas no Brasil, que precisam do cheque especial” —- lembra Patrícia Pereira, gestora de Renda Fixa da Mongeral Aegon Investimentos. “Em muito pouco tempo, essa dívida torna-se impagável. (de O Globo)