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Bolsonaro fecha embaixadas que considera de baixo retorno

04/06/2019

Bolsonaro fecha embaixadas que considera de baixo retorno


Sem alarde, o expansionismo da rede diplomática nos governos do PT começa a ser revertido pelo "novo Itamaraty" do presidente Jair Bolsonaro. O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, deu pontapé inicial no processo de enxugamento de embaixadas abertas pelo petista Luiz Inácio Lula da Silva entre 2003 e 2010.

Nesse período, foram criadas 67 representações no exterior, principalmente em pequenos países caribenhos ou africanos que ajudaram o Brasil em campanhas deflagradas para a chefia de organismos internacionais, assim como na ofensiva por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Pelo menos cinco embaixadas no Caribe já têm fechamento definido: Roseau (Dominica), St. John's (Antígua e Barbuda), St. George's (Granada), Basseterre (São Cristóvão e Névis) e Kingstown (São Vicente e Granadinas).

O Valor apurou que outras duas representações na África estão com seu futuro sob análise pelo chanceler Ernesto Araújo, mas é provável que também encerrem suas atividades: Monróvia (Libéria) e Freetown (Serra Leoa).

Uma sinalização firme sobre esse processo foi dada na semana passada, em circular do ministério à qual o Valor Econômico teve acesso, com a lotação numérica dos servidores em cada posto. Essas sete embaixadas, além de Trípoli (Líbia), ficaram sem nenhum novo funcionário alocado -- diplomata, oficial ou assistente de chancelaria. Isso não significa o fechamento imediato das atividades, mas que não haverá substituição daqueles que forem deixando as suas funções.

O caso da Líbia é específico: com a guerra civil, o Itamaraty avalia que não tem condições de garantir a integridade física dos funcionários e preferiu evitar novas designações, mas descarta fechar a embaixada por enquanto.

Segundo fontes diplomáticas, foram quatro os critérios usados para o redimensionamento dos postos no Caribe, que estão em processo de fechamento já mais avançado. Um deles tem a ver com a baixa representatividade -- ou até mesmo inexistência -- de comunidade brasileira. Outro é a elevada proporção do volume de trabalho em expedientes administrativos (temas ligados a pagamento de pessoal e manutenção do posto). Nessas embaixadas, a troca de correspondências relativas a esses assuntos corresponde a até 68% do total. Em média, fica perto de 30% nos 224 postos mantidos pelo Brasil no exterior.

O terceiro e o quarto fatores são, respectivamente, a pouca expressão do comércio bilateral e os custos orçamentários. Em um levantamento com base em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o período de 2007 a 2018, o Itamaraty verificou que não houve crescimento relevante dos produtos brasileiros na pauta de importações dos países onde as embaixadas foram abertas. A evolução foi de 0,4% para 0,93% nas compras totais de São Cristóvão e Névis, de 0,77% para 0,93% nas de Antígua e Barbuda, de 0,44% para 1,95% em Dominica – o maior aumento.

Com relação ao orçamento, o custeio das novas embaixadas acumulou gastos que vão de R$ 7,3 milhões (Dominica) a R$ 10,6 milhões (Antígua e Barbuda) nos últimos dez anos, em termos absolutos (sem atualização pela inflação). "Nada é desprezível na situação de crise que estamos vivendo", diz um diplomata experiente e crítico das mudanças, "mas seria fácil fazer uma economia semelhante cortando despesas em embaixadas na Europa ou consulados nos EUA."

No ano passado, o Itamaraty já havia fechado o consulado-geral em Beirute (Líbano). Suas funções foram absorvidas pela embaixada do Brasil na mesma cidade. Esse movimento, no entanto, foi interpretado como meramente pontual e não parte de um redimensionamento mais amplo.

Uma das críticas ao fechamento de embaixadas é que isso provoca desgaste do Brasil com governos estrangeiros. Mais do que não ter uma representação brasileira, o problema seria abrir e fechar uma em pouco tempo. Nos governos do PT, o expansionismo deu sustentação à busca por voto para eleger José Graziano diretor-geral da FAO e Roberto Azevêdo para o comando da Organização Mundial do Comércio (OMC). (do Valor Econômico)





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