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Brasil pode voltar a ser o B dos Brics, diz Siemens

01/02/2019

Brasil pode voltar a ser o B dos Brics, diz Siemens


Sabe aquela conversa de executivos que se vêem diante do dilema de relativizar o manual de ética da companhia e oferecer algum pagamento indevido para garantir o fechamento de um contrato apetitoso?

É o tipo de relato que a gigante alemã Siemens, depois do escândalo internacional de propina do qual saiu com multas bilionárias e uma mancha em sua reputação, garante não suportar mais.

"Esqueça. Que ninguém venha me falar da necessidade de cumprir metas usando corrupção", afirma o CEO mundial da Siemens, Joe Kaeser.

Depois do escândalo internacional de propina que lhe custou multas bilionárias e uma mancha em sua reputação, a Siemens montou um time com 800 especialistas em compliance no mundo todo. Esse sistema de controle é caro, burocrático, a empresa já perdeu contratos ao dizer não para pagamentos indevidos, mas assegura que vale a pena. "Cedo ou tarde, a corrupção explode. Acredite em mim. Nós aprendemos isso da pior forma possível."

Em entrevista ao Valor Econômico à margem do Fórum Econômico Mundial na semana passada, em Davos, Kaeser disse que hoje os executivos da multinacional alemã têm mais do que 100% de autonomia para recusar qualquer pedido de vantagem. "Eles têm 100% de probabilidade de serem demitidos se disserem sim", enfatiza.

No Brasil, a Siemens confessou práticas ilegais e formação de cartel em licitações dos metrôs de São Paulo e do Distrito Federal, além de contratos na Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Em 2013, a existência de um esquema foi delatada ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Para o CEO da companhia, a tecnologia ajuda no controle interno e torna menos difícil a identificação de irregularidades. Ele também destaca a importância de estabelecer a prática de "double checking" em todos os procedimentos sensíveis. Ressalta, porém, que a maior transformação ocorre pela mudança de valores. "E a cúpula da empresa precisa liderar pelos exemplos."

Em sua avaliação, a proposta de um "pacto empresarial" - defendida pelo ministro da Justiça, Sergio Moro, durante o fórum - é factível. Além de acentuar que os malfeitos cedo ou tarde se convertem em escândalos para a própria companhia, Kaeser observa: quem rouba em nome da empresa, também rouba a empresa.

O executivo alemão se encontrou em Davos com o ministro brasileiro da Economia, Paulo Guedes, e mostrou-se animado com as perspectivas do Brasil. "Estamos encorajados pelo fato de que há um novo presidente e uma nova era econômica acaba de começar", comenta.

"O país tem tudo para voltar a ser o 'B' dos Brics. Mas, para isso, é preciso ter uma infraestrutura confiável e uma governança transparente. Se esses dois pré-requisitos estiverem colocados, todos irão para o Brasil. Um mercado com 200 milhões é uma parte muito relevante do mundo global. Se eu pudesse dar um conselho, diria: foquem na infraestrutura, definam bons marcos regulatórios e vocês vão ver milhares de companhias indo para o país."

Presente no mercado brasileiro desde 1867, a Siemens teve receita líquida de R$ 4,1 bilhões no ano fiscal de 2018 (crescimento em torno de R$ 600 milhões sobre o exercício anterior). A empresa tem 12 unidades industriais hoje no Brasil e sete centros de pesquisa e desenvolvimento.

À espera de uma decisão dos órgãos europeus antitruste sobre a fusão na área de equipamentos ferroviários com a francesa Alstom, Kaeser acredita em um desfecho positivo neste ano.

"A China já aprovou [a operação], os Estados Unidos já aprovaram, estamos aguardando a aprovação da UE. Acreditamos que é boa para todos", afirma. Se não sair, a vida continua, diz - os negócios no segmento representam apenas 9% do faturamento total da Siemens. (do Valor Econômico)





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