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Brasil vê riscos comercial e político em crise argentina

11/05/2018

Brasil vê riscos comercial e político em crise argentina


Que não se espere nada desestabilizador, mas a crise cambial na Argentina afetará sim o Brasil, avaliam reservadamente auxiliares do presidente Michel Temer.

Inegavelmente, haverá impacto comercial, seja pelo risco de uma desaceleração das exportações de produtos manufaturados ao país vizinho, seja por reflexos no delicado xadrez das negociações do acordo União Europeia-Mercosul, cuja dinâmica pode mudar em uma fase derradeira.

Para além das anódinas declarações oficiais, que sempre buscam minimizar a possibilidade de contágio, o governo brasileiro está, sim, preocupado com a situação argentina.

Obviamente não há unanimidade no diagnóstico, mas quem mais acompanha o assunto em Brasília tem as seguintes avaliações: na tentativa de fazer um ajuste gradual demais, o presidente Mauricio Macri e sua equipe econômica confiaram muito em variáveis sobre as quais não tinham controle, demonstraram certo desconhecimento na abordagem com o Fundo Monetário Internacional (FMI), queimaram o capital político conquistado nas eleições legislativas de outubro passado e renovaram as esperanças do peronismo em voltar à Casa Rosada em 2019.

A Argentina representa entre 12% e 14% de todo o superávit comercial brasileiro em 2017 e no primeiro quadrimestre de 2018. Nas transações bilaterais, o Brasil só tem saldo maior com a China.

A seca na Argentina, que levou à quebra de boa parte da safra de soja, reduzirá em US$ 5 bilhões as receitas no campo. Isto agrava o déficit comercial do país, que já havia atingido US$ 8,5 bilhões no ano passado. A alta do petróleo no mercado internacional complica ainda mais porque, desde o fim da década passada, a Argentina tornou-se importadora de energia.

Tudo isso, além do aumento dos juros nos EUA, eram variáveis não controladas pelo governo e que dificultaram o ajuste gradual perseguido por Macri desde sua posse.

Na visão de autoridades brasileiras, o peso continua sobrevalorizado e precisaria se depreciar mais 10% a 15% para dar competitividade à economia local. Há dúvidas quanto à eficácia da estratégia de vender grandes quantidades de Lebacs, os títulos da dívida de curto prazo emitidos pelo Banco Central argentino, o que só teria dado munição a investidores em fuga.

Trata-se, em resumo, do diagnóstico apontado pelo colunista Carlos Pagni em um artigo no jornal "La Nación" que fez sucesso entre autoridades brasileiras:     "A vida pública está submersa há 15 dias em um mar de perplexidade. Entre todas as incógnitas, há uma dominante: por que a Argentina de Mauricio Macri, que era apontada pelo mundo como um exemplo global, transformou-se em destino tóxico? A pergunta contém uma armadilha: é a palavra mundo".

O pedido de ajuda ao FMI teve indícios de desconhecimento de como a instituição funciona, ao se pensar primeiro em uma linha de crédito flexível, nos mesmos moldes da pedida por Colômbia e México, que apresentavam situações bem distintas nas contas fiscais e externas.

Os argentinos se enganaram com a visita de Christine Lagarde a Buenos Aires, há dois meses, comentam observadores em Brasília. Apesar de xodó dos mercados, Macri terá de se contentar com uma linha clássica "stand-by", que exige medidas duras em troca.

Macri, segundo pessoas próximas ao Palácio do Planalto, parecia rumar para oito anos de governo após sua vitória nas eleições parlamentares de 2017. Agora, a oposição peronista sonha novamente com o poder.

Instabilidade cambial e crescimento menor vão bater nas compras de automóveis produzidos no Brasil. Também vão deixar a Argentina sedenta por um acordo de livre comércio a qualquer custo do Mercosul com a UE. Nos bastidores, já causou mal-estar em Brasília a ansiedade de Buenos Aires por apressar concessões e fechar logo o tratado durante a conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), em dezembro.

Os europeus são perspicazes para detectar esses sinais e cobrar mais por umas toneladas extras de carne ou etanol, afirma um funcionário brasileiro atento aos desdobramentos da crise. (do Valor Econômico)





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