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Com a ascensão de Naruhito ao trono, Japão inaugura nova era

26/04/2019

Com a ascensão de Naruhito ao trono, Japão inaugura nova era


O dia 1º de maio marca o início de uma nova era para o Japão, país que se caracteriza pela construção de si mesmo como nação moderna fundada em virtudes ancestrais.

A era Reiwa, nome com dois ideogramas, que simbolizam "boa sorte" e "paz" ou "harmonia", representa a ascensão de Naruhito ao trono imperial, no lugar de seu pai, Akihito, finalizando assim a era Heisei, iniciada em 1989.

O evento é uma reafirmação do lugar da tradição na vida moderna japonesa. Afinal, trata-se da mais antiga monarquia do mundo ainda ativa, que vem resistindo, por quase dois milênios, a períodos conturbados da história do país, desde intermináveis guerras feudais e a usurpação do poder real do imperador pelos xoguns até, mais recentemente, à quase prisão de Hiroito (avô de Naruhito) pelas forças de ocupação após a derrota na Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Embora o imperador tenha sido obrigado pela constituição imposta pelos Estados Unidos a renunciar à sua "condição divina" -- derivada da crença de que a linhagem imperial descende diretamente de Amaterasu, deusa do Sol --, a instituição nunca deixou de "simbolizar e encarnar não apenas a unidade nacional do Japão e seus valores modernos e tradicionais, mas também suas virtudes e benevolência", como afirmou Kunihiko Miyake, presidente do Instituto Canon de Estudos Globais em artigo recente no "Japan Times".

Se essa descrição do papel do imperador não chega a sugerir sacralidade, não deixa de evocar certa transcendência.

A fala do primeiro-ministro Shinzo Abe, ao anunciar o advento da nova era, também reforçou a natureza especial do momento: "Como as flores da ameixeira florescendo orgulhosamente na primavera após um inverno frio, desejamos que o povo japonês desabroche como flores individuais com a promessa do futuro".

Sua fala é uma alusão ao "Manyoshu", obra clássica japonesa que inspirou o nome da era Reiwa e cujos versos mais antigos datam do século VIII.

A sucessão imperial é, portanto, peça importante na disseminação de uma narrativa oficial que reescreve o clássico binômio "novo versus antigo".

Mais do que uma simples convivência harmoniosa de tradição e modernidade, a antiguidade virtuosa do país é apresentada como inspiração para todas as lutas, pequenas ou grandes, bem-sucedidas ou não, e como marca da cultura japonesa.

Embora várias nações asiáticas tenham emergido de tradições culturais milenares, nenhuma parece ter desenvolvido, como o Japão, um conhecimento e um estilo tão minuciosos e proativos na construção de um presente avalizado pelo passado remoto.

Empenhados em revelar, ou reforçar, as virtudes japonesas dentro e fora do país, esses textos e discursos se dirigem a um público vasto e diverso, cada vez mais acessível graças às inovações tecnológicas a serviço da mídia globalizada.

Pode-se detectar a força dessa narrativa antes, durante e após a guerra, quando a mobilização anterior de esforços para a vitória se transformou, com a derrota e a destruição massiva do país, em desafio de reconstrução nacional.

Se a mística da raiz milenar dos samurais, por exemplo, foi evocada para inspirar, nos palcos de guerra, o espírito de luta e disposição de sacrifício dos soldados e dos cidadãos que apoiavam os combatentes, ela voltou a ser referência de coragem quando a população foi conclamada a reerguer o Japão das cinzas e retomar seu destino de potência mundial.

E se pelas décadas que se seguiram a ética ancestral continuou sendo associada às virtudes da cidadania -- como a resiliência do povo japonês na luta contra tsunamis, furacões e terremotos recorrentes --, ela também inspirou o mundo dos negócios, como é o caso da fábrica Suzuki, que em 1985 lançou um novo jipe "guerreiro e forte como um samurai".

A visão idealizada de seus heróis do passado, inspirando atualização de si próprios como "samurais modernos", tem raízes no código de conduta do "bushido" (caminho do guerreiro), que valoriza a disciplina, persistência, coragem, honra e lealdade, e é referência das artes marciais japonesas.

Essa seleção de histórias e os modos de contá-las compõem o "nihonjinron", ou "as teses da japonesidade", que estudiosos como o antropólogo nipo-americano Harumi Befu vêm explorando há tempos, especialmente um de seus aspectos mais intrigantes: a ideia, amplamente adotada pelas narrativas oficiais de que a sociedade japonesa é homogênea, sendo essa a fonte de sua singularidade e, portanto, de suas virtudes.

Apesar das opiniões divergentes, políticas públicas parecem basear-se nessa premissa, como é o caso das leis que dificultam a imigração para o país.

Fechar as fronteiras para imigrantes não significa, porém, desejo de retomar o isolamento que já foi característica do Japão, de meados da década de 1630 -- quando estrangeiros não entravam e japoneses não saíam, a não ser sob rígido controle -- até 1853, quando uma frota dos Estados Unidos forçou o país a abrir-se para o mundo.

Apenas 15 anos após a abertura dos portos, o Japão deu início a um processo emigratório, cujo primeiro destino foi o Havaí, e que se caracterizaria mais tarde como uma verdadeira diáspora japonesa pelo mundo.

Aliás, esses imigrantes e seus descendentes (os nikkeis) foram peças importantes na disseminação da narrativa da nação de virtudes ancestrais. O historiador Rogério Dezem conta que mesmo os mais humildes imigrantes eram convocados a se comportarem como "pequenos embaixadores do Japão": deveriam dar boa impressão de sua terra natal, mostrando atitude digna e coragem nas dificuldades.

E após várias gerações, seus descendentes ainda se mobilizam em torno dos valores ancestrais: entidades culturais e empresariais programaram uma grande festa para o dia 30 de abril, em São Paulo, pelo advento da era Reiwa, com o tradicional grito "Banzai!", ou "viva 10 mil anos", significando "desejo de prosperidade" para o novo imperador.

Isolamento não tem lugar nas narrativas da nação moderna e ancestral. A Olimpíada de 2020 será para o Japão uma chance de mostrar ao mundo outra de suas qualidades milenares: o "omotenashi", ou a "hospitalidade" do anfitrião cordial e dedicado, derivada de rituais como a cerimônia do chá.

Os princípios milenares de "refinamento" e "elegância", mencionados em obras clássicas como o "Livro do Travesseiro", do século XI, têm sido palavras frequentes tanto no curso de hotelaria da universidade de Osaka, empenhada em preparar os alunos para 2020 com uma combinação de "omotenashi" e padrão internacional de hospitalidade, quanto na apresentação do logotipo dos jogos, cujo padrão xadrez ("ichimatsu moyo") em tom azul índigo, "expressa uma elegância e sofisticação refinadas que exemplificam o Japão".

Mas, apesar das virtudes milenares de seu país, Naruhito terá desafios a enfrentar como líder espiritual do "trono do crisântemo": declínio do crescimento populacional, suicídio infantil e juvenil (embora o número geral tenha diminuído) e fenômenos como o "hikikomori" (pessoas que se isolam em casa) e o desinteresse sexual de grande número de jovens (segundo pesquisa do governo, quase metade das pessoas entre 18 e 34 anos são virgens hoje).

E é justamente a pressão dos valores tradicionais, sobretudo a expectativa de conformidade e obediência a formalidades múltiplas, que tem sido apontada como causa dos desajustes, o que sugere um descompasso entre a narrativa e os narrados. (do Valor Econômico, por Maria Cecilia de Sá Porto, mestre em antropologia cultural e doutora em comunicação pela USP).





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