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Cota ao aço vai reduzir em até 60% as vendas na siderurgia

03/05/2018

Cota ao aço vai reduzir em até 60% as vendas na siderurgia


A decisão do governo americano de impor cotas ao aço brasileiro vai provocar a redução de até 60% das vendas de produtos siderúrgicos para os Estados Unidos, dependendo da categoria -- informou o presidente-executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes. Os EUA são destino de um terço das exportações brasileiras de aço.

Pelo sistema de cotas, o Brasil terá de respeitar um limite que toma por base a média das exportações brasileiras para os EUA entre 2015 e 2017. Uma vez atingido esse limite, as vendas para os americanos serão vetadas e só poderão ser retomadas no ano seguinte. Esta foi a alternativa apresentada pelo governo americano à adoção de uma sobretaxa de 25% sobre as exportações de aço.

O setor siderúrgico brasileiro entendeu que o sistema de cotas seria menos danoso à indústria nacional e decidiu aceitar. Segundo Marco Polo, o setor foi pego de surpresa na última quinta-feira, quando estava reunido em Brasília com representantes do governo brasileiro justamente para tratar dessa questão.

“O governo americano ligou para o governo brasileiro naquela quinta-feira, disse que as condições políticas haviam mudado e que, em razão disso, o Brasil teria que decidir entre as cotas e a sobretaxa, sem mais negociações. O tom foi ‘pegar ou largar’”, disse Marco Polo a jornalistas.

68% da capacidade. Segundo ele, a decisão de aceitar o sistema de cotas levou em consideração dois aspectos: o tamanho do mercado americano e o baixo nível de capacidade instalada das siderúrgicas brasileiras, atualmente em 68%. Marco Polo afirmou que, mesmo com as cotas, o patamar de uso dos altos-fornos serão mantidos. Nos próximos dias, o instituto vai definir critérios para distribuir cotas entre as empresas brasileiras.

Os governos de Brasil e EUA vinham discutindo a adoção de medidas restritivas ao aço desde o início das investigações do Departamento de Comércio americano, no primeiro semestre de 2017. Em 8 de março, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou a decisão de estabelecer alíquota de importação de 25% para o aço e 10% para o alumínio. Mas o Brasil, ao lado de outras nações, como Austrália, Argentina e União Europeia, acertaram uma isenção provisória de taxas até 30 de abril, para que se chegasse a um consenso nas negociações.

O Instituto Aço Brasil defendia que fosse adotado o conceito de soft quota (cota suave), pelo qual, após atingido o limite imposto, as vendas continuassem com a sobretaxa. Mas os EUA acabaram recorrendo à hard quota (cota dura), pela qual, uma vez atingido o teto, as vendas são suspensas. No caso de produtos acabados, há ainda a aplicação de redutor de 30% sobre o volume médio alcançado no período de referência.

Os ajustes finais do acordo bilateral estão sendo feitos, mas a estimativa com que o instituto trabalha é que, uma vez vigente o sistema de cotas, serão vendidas 3,5 milhões de toneladas de semiacabados e 496 mil toneladas de acabados para os EUA em 2018. O acordo deve ser concluídos nos próximos dias.

Segurança nacional. Os volumes representam queda de 7,4% em relação ao que foi exportado para os EUA em 2017, no primeiro caso. Os semiacabados são produtos intermediários que são processados pelas siderúrgicas americanas para abastecer os mais variados segmentos, de linha branca a construção civil.

“No caso de semiacabados, o cenário não é todo ruim. O nosso entendimento é de que vai faltar aço nos EUA e que eventuais ajustes poderão ser realizados”  — disse Marco Polo.

Os produtos acabados abrangem quatro grandes grupos: tubos, planos, longos e aços especiais, usados na indústria naval, automotiva, construção civil, linha branca entre outros. As vendas sofrerão uma queda de 20% a 60% dependendo da categoria. No caso do alumínio, o setor preferiu a sobretaxa ao sistema de quotas.

A decisão do presidente americano de impor alíquota de importação ao aço e alumínio brasileiros e de outros países foi tomada no âmbito da Seção 232, sob o argumento de que as importações de aço constituem ameaça à segurança dos EUA.

Na avaliação do Instituto Aço Brasil, foi “uma medida extrema tomada unilateralmente pelos Estados Unidos para proteger sua indústria siderúrgica e seus trabalhadores diante da ameaça do excesso de capacidade de produção de aço no mundo”.

Hoje, há uma superoferta de aço da ordem de 700 milhões de toneladas no planeta. Por essa razão, a indústria siderúrgica nacional terá dificuldade de reorientar as exportações para outros mercados.

Nas negociações com os EUA, o governo brasileiro e o setor privado enfatizavam que há complementariedade do aço brasileiro com a siderurgia americana, tendo em vista que 81% das exportações do Brasil são de produtos semiacabados encaminhados para produtores de aço locais para laminação e acabamento.

Além disso, as exportações brasileiras de produtos acabados brasileiros para os EUA representam menos de 1% do consumo aparente (vendas internas mais importações) de aço americano e há superávit acumulado da balança comercial dos Estados Unidos com o Brasil, que soma US$ 250 bilhões nos últimos dez anos.

Outro ponto salientado foi que o Brasil é o maior importador de carvão metalúrgico (tipo de carvão usado como insumo na siderurgia) dos EUA, com compras de cerca de US$ 1 bilhão em 2017. (de O Globo)





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