BLOG

Dados móveis facilitam maior oferta instantânea de crédito

12/03/2018

Dados móveis facilitam maior oferta instantânea de crédito


Imagine a cena: uma pessoa passa pela vitrine de uma concessionária de automóveis, entra na loja, começa a olhar os veículos e, de repente, recebe no celular a informação de que tem à disposição uma linha de financiamento para comprar o carro desejado.

Longe de parecer algo futurista, soluções de crédito instantâneo já são oferecidas em alguns países e, segundo a Serasa Experian, são um exemplo das possibilidades da análise de volumes maciços de dados, conhecido no jargão de tecnologia como "big data".

O Valor Econômico entrevistou com exclusividade o CEO global da Experian, Brian Cassin, e o presidente da Serasa Experian Brasil e Experian America Latina, José Luiz Rossi, que falaram sobre o reposicionamento da companhia como provedora de análise de dados.

Conforme Cassin, por meio do georreferenciamento é possível acompanhar o deslocamento dos celulares e enviar, por exemplo, uma oferta de crédito pré-aprovada ao dono do aparelho.

No caso citado, o algoritmo, ao saber que o consumidor visitou lojas de carros, sejam físicas ou virtuais, infere a possibilidade de a pessoa querer comprar um veículo e alerta a instituição financeira. Com base nas informações de perfil disponíveis, coletadas em redes sociais e outras plataformas, o programa consegue até mesmo identificar o modelo mais provável que o cliente pretende adquirir.

"Então, de repente, eu já sei que posso fechar o negócio e evitar, por exemplo, o embaraço de sentar com o vendedor e ter o financiamento negado", afirma o CEO da Experian.

O grupo britânico, mais conhecido pela avaliação do perfil de tomadores de empréstimos ou administração do serviço de proteção ao crédito, inaugurou em novembro do ano passado em São Paulo o mais recente de seus três laboratórios de dados, chamados pela companhia de Data Labs, que conta com um investimento de R$ 47 milhões em cinco anos. Os outros dois ficam em São Diego, nos EUA, e em Londres, no Reino Unido.

A equipe de 22 pesquisadores inclui pós-graduados em disciplinas como matemática, inteligência georreferenciada, criptografia, inteligência artificial, neurociência, "blockchain" e internet das coisas.

A equipe foi reunida para criar aplicações práticas a partir da análise da quantidade cada vez maior de dados disponíveis. O termo "big data", quase sempre acompanhado por adjetivos como essencial ou transformador nos textos disseminados pela internet, tem deixado a esfera de "promessa" para se tornar efetivamente produto de apoio a decisões corporativas e elaboração de estratégias de negócios.

Cassin lembrou a parceria feita entre a Experian e a Coca-Cola no Reino Unido em 2014 para a produção de latas de refrigerante personalizadas com nomes. Com ajuda da empresas de análise de dados, a fabricante de bebidas selecionou mil nomes entre os mais encontrados e produziu embalagens proporcionalmente à quantidade de cada um.

A distribuição dos lotes "seguiu um mapa de locais onde nossos dados apontavam maior probabilidade de encontrar pessoas com aqueles nomes", conta o CEO.

Outro exemplo, citado pelo presidente da Serasa Experian no Brasil, foi a plataforma Mosaic, desenvolvida pelo Data Labs. A ferramenta busca fugir dos estereótipos de segmentação demográfica e de renda e divide a população em 11 grupos e 40 perfis específicos.

"Com isso, conseguimos saber exatamente como aquela parcela da população se comporta em termos de poder de compra e condições de crédito", pondera o executivo.

O chamado "score" de crédito, uma das principais ferramentas utilizadas pela Serasa Experian, permeia grande parte das soluções. Trata-se de uma métrica, de zero a mil, para avaliar a qualidade do indivíduo como pagador. Na prática, significa que quanto maior o score menor a possibilidade de a pessoa cair na inadimplência e, por consequência, maior o acesso ao crédito.

O score leva esse tipo de avaliação muito além do "nome limpo", ou seja, a ausência de anotações de atrasos de pagamento. A metodologia inclui, por exemplo, o histórico de pagamento de contas e os relacionamentos que o indivíduo tem com empresas.

"Hoje mais de 20 milhões de pessoas no Brasil têm acesso gratuito ao seu score e, com isso, podem entender como melhorar a vida financeira", diz Rossi.

"Com a análise cruzada de informações, conseguimos saber até se o score médio de crédito de pessoas que transitam em um quarteirão é maior do que em outro", exemplifica o presidente da Serasa Experian.

"Há nuvens de score transitando pelas cidades, como São Paulo", brinca, “que fornecem indícios importantes sobre capacidade de consumo das pessoas que frequentam um região específica.”

"Por meio da geolocalização podemos deduzir o percentual de casados, solteiros, famílias ou até mesmo a propensão do grupo de consumir determinado modelo de carro ou produtos de luxo", diz Marcelo Pimenta, diretor do Data Labs.

Com base nas informações enviadas pelos celulares, as ferramentas de inteligência georreferenciada podem escrutinar o fluxo de pessoas, a frequência e o tempo de permanência em um determinado lugar, a faixa etária, o perfil socioeconômico e o score de crédito médio de quem circula por um determinado local.

"Com a proliferação de dispositivos conectados, como smartphones, o volume de dados de localização de indivíduos aumentou numa proporção sem precedente e hoje é possível obter as coordenadas geográficas de um indivíduo várias vezes ao longo do mesmo dia", explica o pesquisador do Data Labs, Felipe Santos, em artigo sobre aplicação de modelos matemáticos para entender a mobilidade humana.

De acordo com o CEO da Experian, conforme usamos cada vez mais os aparelhos móveis "para gerenciar nossas vidas, nós fornecemos uma grande quantidade de dados descrevendo não apenas o que fazemos, mas também onde estamos, com o que estamos interagindo e como nós interagimos com produtos".

Segundo Cassin, "à medida que somos cada vez mais inundados por informação há uma grande chance de nos irritarmos com aquilo que chega até nós e então é importante também saber o que as pessoas não querem, o que não interessa a elas, e oferecer o que realmente desejam".

Outra frente de atuação da companhia relaciona-se às "fintechs", empresas iniciantes de tecnologia voltadas para a área financeira. A Serasa Experian tem investido em "marketplaces", ou seja, plataformas semelhantes a um shopping virtual de fintechs de crédito. Por meio delas, pessoas ou micro e pequenas empresas podem contratar financiamentos on-line com a chancela da análise da classificadora de risco.

"As fintechs, em grande parte das vezes, não têm tanta informação sobre os consumidores e podemos ajudar muito essas startups", afirma Rossi. Muitas dessas empresas de pequeno porte, acrescenta Cassin, têm dificuldade no acesso ao crédito e a chancela da análise da Serasa Experian pode funcionar como uma espécie de selo de garantia, que serve tanto para o tomador quanto para a instituição que fornece o crédito. (do Valor Econômico)

 





Cursos