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Documentos reforçam ligação de amigo de Temer com portos

05/06/2018

Documentos reforçam ligação de amigo de Temer com portos


Relatórios da Polícia Federal na Operação Skala, que prendeu amigos e auxiliares do presidente Michel Temer em março, mostram que documentos da Rodrimar, Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp) e Libra foram encontrados na casa de um sócio do coronel João Baptista Lima Filho. A PF suspeita ele seja laranja de Temer na compra de uma fazenda, e que houve contradições em depoimentos sobre o papel dele nas campanhas.

As informações, publicadas ontem pelo blog da jornalista Andréia Sadi no "G1", aumentam a pressão sobre o governo do presidente, mas, segundo o Valor Econômico apurou, não há sinais na Procuradoria-Geral da República de apresentação de uma terceira denúncia criminal contra o emedebista neste momento.

A última prorrogação do inquérito que investiga Temer pelo decreto dos Portos no Supremo Tribunal Federal (STF) foi em 7 de maio, com prazo de mais 60 dias -- que só vence, portanto, em julho, a um mês do início da campanha eleitoral. Este foi o segundo adiamento da investigação e não há prazo limite para conclusão.

De acordo com os relatórios da Operação Skala, a PF encontrou na casa de Carlos Alberto Costa, sócio de Lima, uma bolsa com documentos das empresas Rodrimar, Codesp e Libra, além de arquivos mortos com contratos, aditivos contratuais e receitas financeiras. No "closet" de um quarto de bebê, foi encontrado um arquivo morto com dados da Codesp. Costa foi preso na ocasião por porte ilegal de arma.

Um outro relatório da Polícia Federal, sobre o depoimento do empresário Gonçalo Torrealba, sócio do Grupo Libra, contradisse as respostas de Temer sobre o papel que Lima teve em suas campanhas -- ele negou, à PF, que o coronel tenha atuado como arrecadador de recursos em suas eleições e disse que ele participou apenas como colaborador.

Torrealba, contudo, afirmou no dia 3 de abril que Lima pediu doações para a candidatura de Temer a deputado federal "há mais de dez anos". O hoje presidente da República concorreu à Câmara dos Deputados pela última vez em 2006.

O empresário disse que recebeu Lima na sede da empresa, mas que não fez doações porque contribuía apenas com candidaturas majoritárias e partidos. "Que conheceu João Baptista Lima Filho, chamado de coronel Lima, quando ele foi coordenador de campanha de Michel Temer a deputado federal há mais de 10 anos, solicitou colaboração do declarante para doação. [...] Que se encontrou mais algumas vezes com João Baptista até informar definitivamente que não poderia doar para Temer", diz o relatório da PF.

Em outro trecho, Torrealba afirmou que procurou o coronel Lima em 2015 para agendar encontro na Secretaria dos Portos "por considerar que [ele] tinha proximidade no governo, incluindo Temer".

"Que gostaria de esclarecer que somente entrou em contato com João Baptista porque de fato tinha urgência em solucionar as pendências nas renovações", disse no depoimento, em que admite que a Libra foi beneficiada pelo decreto, mas nega irregularidades ou caixa dois.

No Congresso, a possibilidade de uma nova denúncia com base no inquérito dos portos é vista com ressalvas e divide opiniões até na oposição. Para o líder do PCdoB na Câmara, deputado Orlando Silva (SP), Temer está mais fragilizado hoje e teria dificuldades de permanecer no cargo. O PCdoB votaria a favor da acusação, mas ele ressalta, contudo, que o processo pode aumentar a instabilidade do país. "Considero que a coisa mais importante para o Brasil é ter uma eleição limpa, em que todos os aptos participem", disse.

Já o líder do PT, deputado Paulo Pimenta (RS), defende que, se a PGR tiver elementos, deve denunciar, mas é cético sobre as chances de aprovação. "As duas denúncias rejeitadas já tinham elementos mais do que suficientes, mas foram barradas por um Congresso umbilicalmente ligado ao governo", afirmou.

Em nota, o presidente Michel Temer negou ter qualquer propriedade rural, em seu nome ou de terceiros, rejeitou ter havido irregularidades na edição de normas para portos e queixou-se do vazamento de informações. "Vazamentos de inquéritos impedem a defesa e criam versões descoladas da realidade".

Rodrimar e Libra tinham interesses que poderiam ser atendidos por Lima. A Rodrimar pretendia estender o tempo de exploração das áreas que explora no porto de Santos. Já a Libra pretendia renovar o prazo do contrato que detém no porto de Santos, que iria vencer em agosto de 2015, e tinha cláusula de renovação ainda não usufruída.

A relação da Rodrimar e Libra com o coronel Lima remete à década de 1990. Ele teria sido citado, juntamente com Temer, como um dos destinatários das "caixinhas ou propinas" negociadas com os vencedores das licitações ou com arrendatários de áreas do porto em uma ação de reconhecimento de união estável movida por Érika Santos contra o então presidente da Codesp, Marcelo Azeredo, em 1999. Lima seria "um tal de Lima" e Michel Temer, "MT". O processo contra o presidente foi arquivado. (do Valor Econômico)





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