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Emergentes terão mais um ano de desafios, diz o J.P. Morgan

28/11/2018

Emergentes terão mais um ano de desafios, diz o J.P. Morgan


O banco J.P. Morgan prevê mais um ano de desafios para os mercados emergentes, principalmente a partir do segundo semestre, com os Estados Unidos entrando em um território de política monetária mais restritiva.

Isso deve ocorrer em meio ao debate sobre o início de uma possível recessão na economia americana. Nesse cenário, esses países ainda devem ver saídas de recursos em 2019, mas o Brasil pode se destacar e atrair capital estrangeiro se conseguir avançar na agenda de reformas, principalmente a da Previdência.

"O Brasil pode ter a melhor performance entre os mercados emergentes se fizer as coisas certas", afirma Luis Oganes, chefe de pesquisa para commodities, câmbio e mercados emergentes do J.P. Morgan.

O executivo está no Brasil para participar do seminário "Brazil Opportunities", em São Paulo. O banco prevê desaceleração do crescimento do PIB emergente de 4,8% para 4,4%, de 2018 para 2019, puxado pelo enfraquecimento da economia chinesa, que deve crescer 6,1%. Excluindo a China, a desaceleração será menor, de 3,3% para 3,2%.

O cenário de menor liquidez global, com o Banco Central Europeu (BCE) devendo encerrar o programa de compra de ativos e a política monetária americana caminhando para um território mais restritivo, deve impactar o fluxo de recursos para os mercados emergentes. O banco prevê que os investimentos estrangeiros em ativos desse grupo devem ter ligeira alta, mas continuarão abaixo das máximas históricas.

O banco conta com quatro altas da taxa básica de juros americana em 2019, o que deve levar a taxa básica americana de um território neutro para 3,5% no fim do ano que vem.

A taxa de juros real pode ficar entre 1% a 1,5%, o que deve tornar o país mais competitivo. "A taxa de juros real positiva nos EUA deve trazer mais competição por capital, o que significa que os fluxos de mercados desenvolvidos para os emergentes devem diminuir", afirma Oganes.

Ele lembra que o segundo semestre deve ser mais difícil para os mercados emergentes com o debate sobre o início de recessão nos EUA devendo ganhar atenção.

"Historicamente, no momento em que começa essa discussão, há um aumento da aversão a risco e os mercados emergentes tendem a sofrer", diz.

Nesse cenário, os fluxos para bônus emergentes devem ser mais impactados. O banco espera uma saída líquida de US$ 30 bilhões a US$ 40 bilhões dos fundos dedicados a papéis emergentes em 2019, depois de essas carteiras terem registrado um aporte líquido neste ano de cerca de US$ 20 bilhões.

Esse cenário, segundo Oganes, vai requerer uma resposta da política monetária dos mercados emergentes para estabilizar suas moedas. O banco espera uma pequena desvalorização para o real, com o dólar passando de R$ 3,90, no fim de 2018, para R$ 4,10 no final do próximo ano.

Com a ligeira depreciação do câmbio e o crescimento maior para o país -- de 2,3% em 2019-, o Banco Central, segundo Oganes, deve voltar a subir a taxa de juros em junho, com a Selic devendo encerrar o ano em 8,75%.

Oganes afirma que os investimentos em títulos públicos no mercado local continuarão atrativos. Segundo ele, se o governo conseguir implementar as reformas e enfrentar o problema na parte fiscal, as taxas de juros de prazos mais longos tendem a cair com a diminuição do risco de crédito do governo.

O banco está com uma recomendação overweight (acima da média do mercado) para os títulos públicos em reais e neutra para os papéis soberanos em dólar.

Segundo Oganes, os investidores reduziram a posição em Brasil antes da eleição, mas, com o aumento das chances de vitória de Jair Bolsonaro no segundo turno, aumentaram as alocações e agora estão com uma exposição neutra ao país. "Vemos espaço para compra de ativos brasileiros, mas isso depende de um progresso nas reformas", diz Oganes.

Nesse cenário em que as alocações de investimento ficam mais "oportunísticas", Oganes afirma que o Brasil tem a vantagem de não ter um déficit em conta corrente alto como o da Turquia, África do Sul e Indonésia.

Dessa forma, pode atrair investimentos estrangeiros se conseguir avançar nas reformas. "O problema do Brasil não é externo, é fiscal. O país precisa realizar a reforma da Previdência para estabilizar a parte fiscal", diz.

O cenário base do banco é que o governo consiga aprovar a reforma da Previdência em 2019.

Na avaliação do executivo do J.P. Morgan, a equipe econômica escalada por Bolsonaro é composta por bons nomes, que inspiram confiança no mercado e que entendem os desafios do país.

O que pode ser um desafio para os mercados emergentes é a tensão comercial entre Estados Unidos e China. A falta de um acordo comercial entre os dois países pode levar o governo americano a adotar uma tarifa de importação de 25% para todos dos produtos chineses.

O banco estima que isso teria um impacto de 1% no PIB da China. Mas, segundo Oganes, o governo chinês adotará medidas para atenuar esse efeito, como a adoção de estímulo fiscal, por meio do corte de impostos, além de depreciação do renminbi e redução do requerimento para os bancos manterem sob reserva.

"Vamos ver o que acontecerá na reunião do G20. Se os EUA e a China chegarem a um acordo, talvez tenhamos até um rali nos mercados", diz Oganes. (do Valor Econômico)





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