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Empresas reforçam suas apostas no hedge cambial

24/09/2018

Empresas reforçam suas apostas no hedge cambial


A mudança de patamar do dólar para R$ 4 levou as empresas a reforçarem a carteira de "hedge", buscando proteção contra uma disparada adicional da moeda. De acordo com dados da B3, as compras de dólares superaram as vendas a partir de junho, movimento que prosseguiu até o mês passado.

Analistas apontam que a escalada da cotação serviu de gatilho para uma busca mais intensa de hedge. E agora as companhias -- principalmente aquelas que dependem de importações -- parecem estar mais protegidas, reduzindo a necessidade de se esquivarem de outra esticada da moeda. Já os exportadores podem aproveitar o nível atual da cotação e retomar, com mais intensidade, as vendas da moeda.

Só em junho, as compras líquidas de dólares somaram US$ 5,63 bilhões via contratos de câmbio a termo (conhecidos como NDFs, sigla de Non Deliverable Forwards), registrados na B3. Foi justamente naquele mês que a aquisição bruta da moeda americana avançou ao pico de US$ 17,73 bilhões, o volume mais elevado desde maio do ano passado.

O ritmo se manteve elevado nos últimos meses e, no acumulado do ano até agosto, as compras líquidas alcançaram US$ 7,53 bilhões.

Os contratos de NDFs são instrumento de hedge negociados em balcão, permitindo que as empresas -- principalmente importadores e exportadores -- "travem" uma cotação para uma data futura, dando mais previsibilidade às operações contra a volatilidade no mercado.

Em boa parte do primeiro semestre, as vendas de dólares pelas empresas superaram as aquisições. A virada veio, de fato, em junho e acompanhou uma mudança de patamar da moeda americana.

Até maio, a cotação máxima da moeda tinha sido de R$ 3,77, mas se aproximou de R$ 4 no mês seguinte. Desde então, o patamar se consolidou e o dólar já bateu sua marca histórica de fechamento, encostando em R$ 4,20, durante o mês de setembro.

"Saímos de um nível relativamente estável para uma aceleração muito grande. Isto parece ter levado muitas empresas a anteciparem uma operação de hedge contra uma piora maior", diz Fábio Zenaro, diretor de Produtos da B3. Quando o dólar supera um certo nível de conforto ou ativa um gatilho, acrescenta, é comum que as empresas se antecipem ao risco de a taxa ficar ainda mais alta.

Agora, diz Zenaro, os importadores já parecem estar mais protegidos contra novos saltos do dólar. "Tenho a sensação de que boa parte dos importadores já antecipou o hedge nos últimos meses, de olho na volatilidade típica do período eleitoral", diz.

Para o mês de setembro, a expectativa é de que a atuação de exportadores se destaque com a venda de moeda americana, após o dólar bater o recorde ante o real. A esticada da cotação serve para essas empresas travarem taxas e se protegerem do risco de a moeda cair num ano de tanta volatilidade.

Essa lógica ajuda a explicar o que já ocorreu em abril, quando o volume de vendas de dólares via NDF subiu para US$ 18,09 bilhões, a máxima no ano.

Na avaliação da chefe de tesouraria da Heineken, Silvia Barros de Mello, a estratégia tradicional de composição gradual da carteira de hedge é alterada para enfrentar períodos tão atípicos e de tanta volatilidade.

"Creio que faz mais sentido executar o hedge do ano inteiro antes do segundo semestre, aproveitando as oportunidades pontuais que o mercado oferece", disse a especialista, em evento recente em São Paulo. "No segundo semestre, conforme as eleições vão se aproximando, a volatilidade explode [...] não faz sentido esperar e fazer [hedge] devagarinho."

No ano até agosto, o volume total de NDFs chega a US$ 211,47 bilhões, avanço de 16% ante o mesmo período do ano passado, segundo dados da B3. Isso inclui as operações de venda e compra de dólares pelas empresas, enquanto os bancos ficam na contraparte.

O custo da operação de curto prazo fica mais acessível por causa do nível historicamente baixo dos juros no Brasil, contribuindo para a demanda de hedge. "O custo não é grande preocupação, principalmente se for relativizado com o cenário de risco", diz Jayro Rezende, gerente de tesouraria do Bank of China.

De forma geral, uma parte do hedge feito pelas empresas é mais rígido e segue as políticas de cada instituição. Outra parcela é trabalhada de maneira mais discricionária, dependendo da conjuntura. De acordo com os especialistas, é justamente essa fatia que acaba afetando o quadro do mercado de derivativos.

"O cenário era mais benigno no começo do ano e o importador pode ter preferido esperar mais um pouco para comprar dólares, sempre mantendo o dedo no gatilho", diz o diretor de mesas e produtos do Itaú BBA, Eric Altafim.

"Para o importador, é mais difícil tomar a decisão quando o mercado parece estar ao seu favor; mas, quando o dólar começou a subir rapidamente, o importador teve que fazer o hedge", acrescenta.

Por ora, as empresas parecem estar mais protegidas e o volume de hedge não deve crescer muito mais. Já olhando mais para frente, caso o dólar continue caro, Altafim aponta que as empresas também podem começar a repensar suas estratégias de importação e exportação.

"Os importadores podem pensar em desenvolver o mercado local, bem como os exportadores podem voltar a buscar novos mercados para exportação e isso também afetaria o mercado de hedge." (do Valor Econômico)





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