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Estrangeiro já tirou R$ 10,6 bi da bolsa: pior saldo desde 2008

28/06/2018

Estrangeiro já tirou R$ 10,6 bi da bolsa: pior saldo desde 2008


O primeiro semestre de 2018 se aproxima de seu fim com os investidores estrangeiros retirando mais de R$ 10 bilhões da bolsa de valores brasileira. Os ingressos recordes de recursos registrados no começo do ano agora se converteram na maior retirada líquida em um primeiro semestre na história da bolsa.

A última vez que uma fuga dessa magnitude aconteceu foi na crise financeira de 2008, quando o saldo negativo anual foi de R$ 24,6 bilhões. No primeiro semestre daquele ano, a retirada foi de R$ 6,66 bilhões.

O expressivo número negativo reflete o atual momento dos mercados globais, menos interessados em tomar risco e apostar em emergentes, mas também à dinâmica própria do Brasil. Por aqui, além da trajetória dos indicadores apontar um crescimento mais fraco em 2018, aquém do que era esperado, as eleições em outubro representam um elemento extra de risco.

"Se a tendência de retirada dos estrangeiros vai continuar é muito difícil dizer, num momento tomado por incertezas, mas o fluxo diminuiu muito, não estamos mais no contexto de antes", afirma César Mikail, responsável pela área de trading equities da Western Asset. "Em um ambiente de excesso de liquidez [no mundo], o investidor não ligaria para isso, mas não é mais o caso."

A posição líquida do estrangeiro em 2018, até 25 de junho, dado mais recente disponível, está negativa em R$ 10,6 bilhões, segundo a B3. Apenas no mês de junho, a retirada líquida de recursos já foi de R$ 6,58 bilhões.

O crescimento vertiginoso do dinheiro que circula em bolsa também chama a atenção: o saldo da participação estrangeira em junho é resultado de R$ 116,6 bilhões em compras de ações e de R$ 123,1 bilhões em vendas. Pela primeira vez, as negociações mensais de compras ou vendas de papéis com capital externo giraram volume tão elevado: antes de 2018, nenhum mês chegou a movimentar mais de R$ 100 bilhões.

O número da bolsa considera outras movimentações dos estrangeiros além do pregão diário, como participação em aberturas de capital, mas dá uma boa dimensão de suas movimentações. Segundo o Banco Central (BC), os investimentos estrangeiros em carteira apresentaram uma saída líquida de US$ 5,443 bilhões em maio e, nas contas parciais até 21 de junho, saída de US$ 1,418 bilhão.

E esse dinheiro não está migrando para a renda fixa local. Segundo o BC, até o último dia 21, o mercado de renda fixa no país contava com saídas líquidas de US$ 336 milhões. O Tesouro Nacional vem atuando para tentar conter a instabilidade no mercado e precisou recomprar títulos prefixados de longo prazo para destravar as operações, mesmo com juros altos.

Os riscos domésticos, sobretudo no campo político, impõem um prêmio de risco maior e que vem inibindo o fluxo para esses ativos. Além disso, com o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos nas mínimas históricas, a demanda segue bastante reprimida.

Para analistas, todos esses fatores apontam para uma conclusão: existe uma volatilidade grande que afeta os investimentos no Brasil, mas, mais do que isso, a leitura do estrangeiro sobre o país piorou bastante. E isso não apenas porque os emergentes enfrentam uma fase de fragilidade grande, mas também porque, sem saber o que vem pela frente no pleito de outubro, é melhor apostar em quem tem menos riscos a oferecer.

Mesmo em anos em que a preocupação do investidor em termos políticos era bastante elevada, a percepção de risco não chegou aos níveis precificados hoje. Em 2014, quando Dilma Rousseff foi reeleita para a Presidência, a posição dos estrangeiros estava positiva em R$ 12,2 bilhões na bolsa até o fim do primeiro semestre.

Já no acumulado do ano -- quando o mundo contava também com uma dinâmica melhor --, o ingresso de capital externo nas ações ficou em R$ 20,3 bilhões.

Segundo Roberto Rocha, diretor da área de ações do Citi Brasil, as quedas mais intensas da bolsa ampliaram o nível de desconto dos preços. Mesmo assim, uma reversão do fluxo e a renovação do interesse ainda é de difícil previsão.

Rocha foi um dos que mantinha uma posição bastante otimista para a bolsa de valores neste ano e apostava, inclusive, em Petrobras, um dos pivôs do forte ajuste dos investidores depois da greve dos caminhoneiros.

Mesmo assim, o diretor não alterou sua projeção para o Ibovespa no fim do ano, atualmente em 95 mil pontos -- e aguarda maior avanço da agenda eleitoral para prever cenários. Até agora, a bolsa segue "travada" na região entre 69 mil pontos e 71 mil pontos: ontem, fechou em queda de 1,11%, aos 70.609 pontos.

"Quando saídas dessas proporções na renda variável acontecem, elas representam um saque da classe de ativos, no caso, de todos os emergentes, porque significa tirar o risco da carteira", afirma. "Mas o Brasil ficou numa situação bastante vulnerável. No começo do ano, éramos um mercado preferido, mas não vejo mais dessa forma."

Para Frederico Sampaio, diretor de investimentos da Franklin Templeton, a posição dos estrangeiros no mercado à vista deve ser relativizada porque, como eles estão comprados no mercado futuro, a posição líquida não é negativa. No mercado futuro, os não residentes estão comprados em quase R$ 12 bilhões, o que representa um saldo positivo de quase R$ 3 bilhões, segundo dados da CM Capital Markets, compiladas a partir da Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia (CBLC).

Mesmo assim, vale dizer que o mercado futuro não é usado apenas para quem quer apostar a favor da bolsa, mas também por quem quer se proteger. "Agora vivemos escassez de recursos no mundo, migrando para os EUA em meio ao debate sobre a alta de juros por lá", diz Mikail, da Western. (do Valor Econômico)





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