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Estresse eleitoral põe dólar e ouro na liderança de aplicações

31/08/2018

Estresse eleitoral põe dólar e ouro na liderança de aplicações


Dólar e ouro voltaram a liderar o ranking das aplicações financeiras em agosto, sintoma do elevado grau de incerteza no mercado brasileiro, que entrou definitivamente no "modo eleições".

No exterior, a guerra comercial conduzida pelo presidente americano, Donald Trump, e a mudança de ciclo monetário nas economias desenvolvidas também não proporcionam um pano de fundo dos mais favoráveis a economias emergentes.

Com essa combinação, a recomendação de especialistas de investimentos é seguir mais leve em ativos de risco, por mais prêmios que alguns mercados possam apresentar depois de tanto vaivém.

O dólar comercial ganhou 10,39% em agosto, até ontem, e, no ano, a moeda americana acumula valorização de quase 25,05% ante o real. O ouro, com 8,28% de ganhos no mês, tem rentabilidade de 16,93% desde janeiro.

Na bolsa, o Ibovespa voltou a se desvalorizar, com recuo de 3,55% no mês, após avançar 8,8% em julho. O índice de small caps, de empresas de menor capitalização, perde 4,65% em agosto e 8,82% em 2018. Com a economia ainda rateando, o indicador que representa a média das ações do setor imobiliário é um dos mais depreciados, com perda de 4,05% no ano.

A renda fixa mostra pouco brilho e ainda não se recuperou totalmente do pós-greve dos caminhoneiros e o fim precoce do ciclo de corte de juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom), em maio. No mês, o IRF-M, que representa uma cesta de títulos públicos, recua 1,26%, com os ganhos do ano limitados a 2,56%.

"A maior recomendação é que o investidor tenha uma grande diversificação e não tome posições extremas em papéis longos que podem ter muita oscilação de preços, além de uma carteira com viés de curto prazo", diz Gustavo Schwartzmann, superintendente-executivo do private banking do Santander.

Traduzindo em ativos, isso significa deixar uma parcela maior em CDB com liquidez, por exemplo, em vez de em letras de crédito imobiliário (LCI), com carência de pelo menos seis meses, ou em debêntures incentivadas. Para quem tem até R$ 500 mil, o peso dos multimercados no perfil moderado também ficou menor.

"Quando o cenário melhorar, o aplicador pode se beneficiar dessa liquidez, vai ter capacidade de se movimentar e recompor algumas posições", diz. Schwartzmann, que sugeria um percentual de alocação em dólar para a pessoa física já em março -- por prever que nos quatro a cinco meses à frente a moeda ficaria num intervalo entre R$ 3,25 e R$ 3,50 --, agora, com a divisa americana na casa dos R$ 4, recomenda proteção em fundos cambiais só para quem tem compromissos em moeda estrangeira. Na bolsa, o posicionamento em ações de exportadoras, como a Fibria, é uma alternativa.

O executivo cita que parte da desvalorização recente do real é fruto do cenário doméstico, em meio à incógnita eleitoral, e parte decorre de fatores externos, com a escalada da guerra comercial entre Estados Unidos e China já arranhando emergentes como Turquia e Argentina.

O Brasil, com suas fragilidades fiscais, e sem saber qual será o perfil do novo presidente, fica no meio do fogo cerrado. "A inflação ainda abaixo da meta permite que a Selic fique em 6,5%, mas a grande questão é a taxa de câmbio."

Neste ano dá para dizer que acabou a leniência do investidor estrangeiro com os emergentes por conta do início do processo de alta de juros nos EUA, que vai prosseguir nos próximos meses e anos, com economias como a europeia e a do Japão na sequência, afirma Ronaldo Patah, estrategista da UBS Asset Management.

"Os próximos dez anos não serão tão simples como os últimos dez, em que os bancos centrais [desenvolvidos] só injetaram liquidez, para tirar as economias da crise", diz. A tendência, na margem, é ter menos liquidez, o que faz com que os emergentes mais vulneráveis, principalmente os que não fizeram a lição de casa, sofram. "Acaba tendo punição forte do mercado com desvalorizações cambiais fortíssimas. O cenário internacional mais adverso torna a eleição mais importante."

Para ele, o movimento no câmbio decorre não só da saída de capital estrangeiro do país, como também do investidor local, que tem demonstrado mais disposição para diversificar seu portfólio com ativos no exterior. Entre os investidores da instituição, há, por exemplo, um pedaço da alocação em bolsas globais e outras moedas, como euro e iene, além do dólar.

Como dependendo de quem ganhar o voto do brasileiro nas urnas o cenário para investimentos muda completamente, a recomendação de Patah é fazer uma forte diversificação de ativos sem concentração em nenhuma classe. A única posição em que o UBS tem indicado sobrealocação é nas Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B), pois há um viés ainda benigno para o pós-eleições, sob a leitura de que o Brasil vai prosseguir com reformas independentemente de quem seja eleito.

"Nos atuais níveis de preços, praticamente todas as classes de ativos estão atraentes, da bolsa à renda fixa, dos indexados à inflação aos prefixados", diz Patah. "Devido à extrema incerteza, a gente prefere [o título atrelado à] inflação, pois caso esteja errado, o principal efeito será a alta do dólar e o aumento das expectativas de inflação. Nesse cenário, o investidor fica mais protegido."

O executivo avalia que depois de o Brasil sofrer uma recessão profunda nos últimos anos, há uma recuperação cíclica em andamento, embora num ritmo menor do que se previa no início de 2018. Com muita capacidade ociosa na economia, dá para reduzir esse "gap", sem que isso seja um gatilho para tirar a inflação do rumo. "Apesar da alta volatilidade dos últimos 45 dias, o país está num ciclo de crescimento."

No meio do jogo eleitoral, Marcos De Callis, estrategista de investimento da asset do Banco Votorantim, vê um ambiente bastante controverso à frente, pesando as cenas doméstica e externa. Após Turquia e Argentina vivenciarem uma fuga de capital estrangeiro, mesmo o Brasil, com melhor situação no balanço de pagamentos e sem endividamento privado em dólar relevante, entra na mira.

É a insegurança com o resultado das eleições que acaba deixando o mercado nessa situação binária, diz: se é um candidato reformista que mostra mais chances, o mercado melhora, sai da zona de perigo. Caso contrário, os preços voltam a piorar.

"Como as leituras das pesquisas [eleitorais] realmente não estão dando sinal de muito alento para o investidor, todo mundo está mexendo nas carteiras e ficando mais leve ou mais defensivo", afirma De Callis.

Na asset do Votorantim, tal percepção resultou na redução das posições de risco de maneira geral, embora ele enxergue prêmios nas NTN-Bs longas, com a inflação implícita acima da meta oficial do BC, de 4,5%, bem como nas posições mais curtas.

"O mercado já está colocando na conta chances importantes de o BC subir juros nas próximas três reuniões do Copom. A ação vai depender da precificação do risco, o BC não parece com pique para mexer nos juros antes da eleição."

Numa carteira direcional, a redução do risco significou baixar o posicionamento em títulos prefixados e em bolsa, e colocar um pouco de hedge cambial. A ideia é também deixar o investidor com mais liquidez para aproveitar oportunidades que porventura surgirem. Posições "off-shore" também têm sido recomendadas há algum tempo em produtos sem hedge cambial.

A greve dos caminhoneiros antecipou o aumento da volatilidade que viria de qualquer maneira com o avançar da campanha eleitoral, mas, neste ano, as oscilações de preços tendem a superar o que se viu nas eleições de 2014, segundo Carlos Carvalho, sócio da Saga Capital.

"É uma eleição atípica, com uma quantidade tão grande de variáveis que o nível de premiação deve ser superior ao das eleições anteriores", afirma.

Para se aproveitar desse cenário, o gestor também tem preservado mais caixa para se posicionar quando houver distorções mais aparentes. "A gente fica esperando os excessos. Quando o mercado se comportar de forma disfuncional, a gente entra na ponta contrária." (do Valor Econômico)





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