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EUA abrem guerra comercial contra UE, Canadá e México

01/06/2018

EUA abrem guerra comercial contra UE, Canadá e México


Os EUA dispararam o primeiro tiro de uma guerra comercial contra três de seus principais parceiros comerciais. O país decidiu ontem começar a cobrar tarifas sobre aço e alumínio importados de União Europeia, Canadá e México.

A iniciativa de tomar medidas contra aliados tradicionais dos EUA, com base em motivos de segurança nacional, prepara o caminho para uma rodada de tarifas "olho por olho, dente por dente" entre algumas das maiores economias mundiais, a poucos dias da cúpula do G-7, no Canadá.

A UE diz há meses que adotará retaliações contra qualquer tarifa imposta pelos EUA. Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão Europeia, disse ontem que o bloco dará continuidade a planos de impor suas próprias tarifas a produtos americanos como uísque bourbon, motos e pasta de amendoim. "Este é um dia ruim para o comércio mundial", afirmou Juncker.

Antes do anúncio, o ministro das Finanças da França advertiu que a UE não terá escolha senão "entrar numa guerra comercial" com os EUA se o presidente Donald Trump impuser as tarifas sobre aço e alumínio. "Nossos amigos americanos têm de saber que, se tomarem medidas agressivas contra a Europa, a Europa não deixará de reagir", disse Bruno Le Maire, após reunião com Wilbur Ross, secretário de Comércio dos EUA.

O premiê do Canadá, Justin Trudeau, qualificou as novas tarifas de "totalmente inaceitáveis" e deixou clara sua indignação pelo país ser tachado de ameaça à segurança nacional aos EUA. "Há 150 anos o Canadá é o aliado mais fiel dos EUA... Das praias da Normandia até as montanhas do Afeganistão, lutamos e morremos juntos", disse ele. "É inconcebível o Canadá ser considerado uma ameaça à segurança nacional dos EUA."

O Canadá disse que adotará tarifas sobre US$ 12,8 bilhões em produtos importados dos EUA a título de retaliação, entre os quais alumínio e aço, mas também produtos de uso diário, como detergente. O México também disse que imporá tarifas retaliatórias a uma ampla gama de produtos dos EUA, de aço a carne de porco, salsichas e frutas.

"Isto marca uma escalada significativa [da parte dos EUA e] o primeiro tiro de uma guerra comercial há muito temida", afirmou Edward Alden, professor-visitante-sênior do Council on Foreign Relations, de Washington.

A medida tomada pelos EUA e a rápida reação dos aliados ocorreram após Ross ter dito que as negociações com a UE nos últimos meses não levaram a lugar nenhum e que as discussões com Canadá e México para atualização do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), estavam se estendendo demais.

As tarifas de 25% sobre o aço e de 10% sobre o alumínio, que os EUA dizem serem necessárias por motivos de segurança nacional, foram inicialmente anunciadas em março, como parte de medidas restritivas tomadas pelos EUA contra a China e a suposta inundação dos mercados mundiais com metal barato produzido pelos chineses.

Mas os acontecimentos de ontem chamam a atenção para o quanto o esforço de Trump em assumir uma linha mais dura com a China acabou prejudicando relações econômicas ainda mais estreitas com aliados tradicionais como a UE e seus parceiros do Nafta. Juntamente com as negociações comerciais entre os EUA e a China em Pequim, neste fim de semana, as tarifas devem dominar as conversas de Trump e os demais líderes do G-7 na semana que vem.

Chad Bown, professor do Peterson Institute for International Economics, disse que a China tem sentido muito pouco o impacto decorrente das tarifas de Trump sobre os metais, uma vez que as exportações de aço e de alumínio da China para os EUA são insignificantes atualmente e, na maior parte, já são objeto de severas tarifas antidumping. "Isso agora apenas ataca, primordialmente, nossos aliados econômicos e militares."

O comércio total dos EUA com a UE movimentou quase US$ 720 bilhões no ano passado, abaixo do US$ 636 bilhões do comércio com a China. O comércio americano com seus parceiros do Nafta, Canadá e México, que compõem cadeias de suprimentos de muitas empresas americanas, alcançou mais de US$ 1,1 trilhão.

Essas relações tendem a ser postas ainda mais à prova nos próximos meses, quando o governo Trump voltar sua atenção para o comércio exterior de automóveis. Na semana passada, ele deu início a uma investigação, também sob o argumento de segurança nacional, das importações de automóveis e autopeças, a fim de impor uma tarifa de importação de 25%, que pode lesar produtores asiáticos e europeus, muitos dos quais têm grandes fábricas nos EUA.

Ontem, após reunião conjunta com o representante de Comércio dos EUA, Robert Lighthizer, para discutir como enfrentar o excesso de capacidade da China na produção de aço e outros assuntos, a comissária de Comércio Exterior da UE, Cecilia, Malmström, e Hiroshige Seko, do Japão, advertiram que os EUA poriam em risco todo o sistema de comércio mundial com uma medida para os automóveis.

"Isso vai causar séria turbulência no mercado mundial e poderá levar à extinção do sistema de comércio multilateral baseado nas regras [da Organização Mundial de Comércio]", disseram eles.

"Se Trump impuser algo próximo de 25% sobre os carros alemães, eu veria isso como o fim da relações comerciais entre Alemanha e EUA. Nem um único automóvel montado na Alemanha e vendido nos EUA seria comercializado com lucro", disse o analista Arndt Ellinghorst, da assessoria de investimentos Evercore ISI.

Adam Marshall, diretor-geral das Câmaras de Comércio Britânicas, disse que a adoção das tarifas pelos EUA é "enormemente negativa" e previu que as tarifas prejudicarão muito o Reino Unido.

"Num momento em que o Reino Unido sai da UE, a decisão do governo americano de impor tarifas punitivas é um lembrete útil de que o interesse próprio é um traço relevante das negociações comerciais", disse ele. "Os ministros deveriam refletir sobre isso cuidadosamente antes de tentar realizar qualquer acordo comercial futuro entre o Reino Unido e os EUA."

O secretário de Comércio britânico, Liam Fox, disse esperar que os EUA ainda possam ser convencidos de que o problema é a superprodução chinesa, e não a produção europeia. Ele descreveu as tarifas como "muito decepcionantes" e "claramente absurdas", já que o Reino Unido vende aço usado para fabricar material bélico nos EUA.

Cresce ainda a ameaça potencial de imposição de bilhões em sanções comerciais contra a UE resultantes de uma longa disputa entre a Boeing e a Airbus na qual a OMC, no começo deste mês, tomou o partido dos EUA em um dos processos, enquanto sua outra decisão, esperada para breve, deverá favorecer a UE, segundo previsões.

Ross disse que os EUA não tinham alternativa senão impor tarifas a aliados, num momento em que tentam fazer frente à superprodução chinesa de aço e alumínio, boa parte da qual ingressa nos EUA via terceiros países a fim de fugir às tarifas antidumping já em vigor. (do Valor Econômico)





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