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Gigantes de tecnologia gastam US$ 115 bi em recompra de ações

14/11/2018

Gigantes de tecnologia gastam US$ 115 bi em recompra de ações


As cinco empresas americanas de tecnologia com caixas mais abarrotados aproveitaram as reformas tributárias do presidente Donald Trump para gastar mais de US$ 115 bilhões nos primeiros três trimestres para recomprar as próprias ações.

O valor das recompras de ações feitas até agora por Apple, Alphabet, Cisco, Microsoft e Oracle, depois da mudança tributária que entrou em vigor no fim de 2017, é quase o dobro do que as empresas gastaram em todo o ano de 2017, o que coloca os investidores entre os maiores beneficiários do plano propagandeado como um impulso para o emprego nos Estados Unidos.

As empresas também aumentaram seu investimento em bens de capital em 42% em comparação com os mesmos meses de 2017, para US$ 42,6 bilhões, segundo cálculos do Financial Times.

Também há uma tendência paralela, encabeçada pelas companhias de tecnologia, que foi identificada pela Moody’s Investors Service em relatório divulgado nesta terça-feira, que consiste na canalização de uma maior parte de seus recursos extras decorrentes da reforma para pagar dívidas.

Os novos dados intensificam o debate sobre até que ponto a reforma dos impostos favoreceram os investidores em vez de estimular os investimentos e beneficiar os trabalhadores americanos.

A Associação Nacional de Economia Empresarial (Nabe, na sigla em inglês) avaliou em outubro que as mudanças no código tributário não haviam “impactado em termos gerais os planos de investimentos e contratações”.

Os caixas das empresas americanas de tecnologia estavam entre os maiores do país, quase em sua totalidade guardados no exterior, onde escapavam de impostos a serem pagos de imediato.

A Lei de Empregos e Corte de Impostos de 2017 trouxe essas reservas para o radar tributário, mas a uma alíquota reduzida -- incentivando as empresas a usar o dinheiro em vez de deixá-lo se acumulando.

“A maioria das empresas vem usando o caixa para recomprar ações e fazer aquisições, em vez de investir em novas instalações”, disse Walter Price, um gerente de investimentos especializado na área de tecnologia na Allianz.

“Acho que isso é bom para os acionistas e para os executivos.” As empresas de tecnologia também têm usado o dinheiro para pagar dívidas assumidas em anos anteriores e usadas na recompra de ações, acrescentou.

Logo depois da aprovação da lei tributária, a Apple, que tem o maior caixa e posições de investimento no exterior, ganhou as manchetes ao anunciar que sua “contribuição direta” para a economia dos EUA seria de US$ 350 bilhões ao longo dos cinco anos seguintes.

Desde então, elevou seus investimentos em bens de capital para US$ 14,5 bilhões, 14% a mais do que no ano anterior. Os gastos em recompras, entretanto, quase triplicaram em relação aos nove primeiros meses de 2017 e chegaram a US$ 62,6 bilhões.

Investidores e analistas dizem que o dinheiro repatriado também vem contribuindo para novos investimentos. Mas planejar novas instalações leva mais tempo do que executar um programa de recompra, de forma que vai levar mais tempo para que esses números apareçam nas contas de investimentos de capital, segundo Price.

“Há uma forte correlação entre a reforma tributária e os gastos de capital”, acrescentou o analista Youssef Squali, especializado em internet no SunTrust Robinson Humphrey, destacando o Google e o Facebook, que, somados, pretendem gastar US$ 37 bilhões neste ano, acima dos pouco menos de US$ 21 bilhões de 2017.

O Departamento do Comércio informou que o crescimento dos investimentos totais das empresas teve desaceleração no terceiro trimestre, depois de um começo do ano aquecido. Brett Ryan, economista sênior para os EUA do Deutsche Bank, disse na semana passada que prevê uma retomada nos investimentos em bens de capital no quarto trimestre e uma desaceleração gradual em 2019.

As recompras de ações, por sua vez, subiram 44% no acumulado do ano, segundo o Goldman Sachs, que projeta uma nova alta em 2019, de 22%. Um total de apenas 25 empresas foi responsável por 99% do crescimento nas recompras neste ano, de acordo com o banco de investimento, o que coloca em evidência a influência desproporcional do uso de caixa das empresas de tecnologia.

A análise da Moody’s a partir dos números de 100 empresas não financeiras com grandes caixas concluiu que, desde a implementação da reformulação dos impostos em dezembro, elas deixaram de contrair dívidas e passaram a pagá-las.

Essas empresas pagaram US$ 72 bilhões em dívidas nos primeiros seis meses de 2018, valor próximo aos US$ 81 bilhões que usaram para recompras de ações e distribuição de dividendos e superior aos US$ 47 bilhões alocados para investimentos em bens de capital e pesquisa e desenvolvimento.

“Na esteira da reformulação de impostos, temos visto uma mudança drástica no comportamento das empresas, que passam de captadoras líquidas a uma posição de pagadoras líquidas”, disse David Gonzales, analista sênior de contabilidade da Moody’s.

As empresas de tecnologia estão na dianteira dessa tendência, com a Moody’s tendo detectado pagamentos adicionais de dívida líquida de US$ 6,5 bilhões na Apple e de US$ 4,8 bilhões na Microsoft, comparados ao ritmo de 2016-2017. Abbott Laboratories, Chevron e Gilead Sciences também estão entre as que optaram por promover grandes aumentos no pagamento de dívidas.

A dívida das empresas dos EUA cresceu para os níveis anteriores à crise, somando US$ 9,4 trilhões, o equivalente a 46% da produção doméstica americana, o que levou Janet Yellen, ex-presidente do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), a alertar para o relaxamento dos padrões de concessão de créditos à medida que as memórias da crise vão se esvanecendo. (do Valor Econômico)





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