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Idosos são os que mais sofrem com o superendividamento

05/07/2018

Idosos são os que mais sofrem com o superendividamento


Pessoas com mais de 55 anos -- normalmente aposentadas -- são as principais vítimas do superendividamento. É o que mostra pesquisa inédita da Defensoria Pública do Rio, a partir de consumidores que buscam a Comissão de Superendividados, do Núcleo de Defesa do Consumidor da Defensoria (Nudecon).

Foram entrevistadas 95 pessoas que fizeram audiência de conciliação com os bancos, cujas dívidas, somadas, atingem R$ 2,4 milhões. Desse grupo, 64% têm mais de 55 anos. O Nudecon aponta ainda que três de cada dez pessoas que recorrem à comissão têm mais de 70 anos (com 90% da renda comprometida). Esse quadro é, principalmente, resultado da ampla oferta de crédito consignado que mira esse segmento.

“Para esse público, a oferta de consignado é ainda mais agressiva do que para trabalhadores em geral. O crédito consignado, aliás, é a operação mais frequente, com 41,8%. Trata-se de pessoas que não têm condições de pagar suas dívidas atuais e futuras, e não têm o mínimo de recurso disponível para a sua subsistência” -- explica Patrícia Cardoso, coordenadora do Nudecon.

Dívida sobre dívida. Ela ressalta que o montante total do endividamento pode ser ainda maior, já que muitas pessoas chegam à comissão sem saber sua dívida total. Patrícia também chama atenção para o fato de 50% do total de entrevistados serem servidores públicos ativos ou aposentados.

Das 453 pessoas atendidas pela comissão em 2017, o estudo selecionou os 95 que tiveram audiência de conciliação com os bancos -- 61% chegaram a acordo, um terço com redução média de 57,82% da dívida. No entanto, entre as propostas rejeitadas, algumas ofereciam abatimento de 76%. Foram consideradas dívidas de empréstimos consignados, cartões de créditos e empréstimo pessoal.

“São os casos mais críticos. Não adianta dar crédito a quem não pode pagar e depois oferecer uma proposta com um desconto enorme. Nesse meio tempo, a pessoa já se endividou e não tem condições de quitar, nem com a redução”, diz Patrícia.

Flávia Freitas, subcoordenadora do Nudecon, ressalta que o superendividado não quer ficar inadimplente, por isso faz renegociação em cima de renegociação. Ela explica que a comissão busca inverter o cenário em que “o protagonista da vida financeira do consumidor é o banco”.

“Comecei a me endividar quando minha mulher ficou doente. Fiz empréstimos para pagar o tratamento e nunca mais consegui me organizar. Hoje, 90% da minha aposentadoria vão para o pagamento de consignados e outros empréstimos - conta um carioca, servidor público aposentado de 79 anos, morador do Engenho de Dentro.

Suas dívidas passam de R$ 45 mil. Ele conta que, do salário bruto de R$ 9 mil, sobram R$ 5 mil depois do débito dos consignados. Ele ainda tem de usar R$ 4 mil para pagar outras dívidas.

O economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social, pondera que, no Brasil, a questão não é tanto o percentual de endividamento, mas os juros altos. “E, quanto mais a situação se agrava, maiores os juros ofertados a ele. A dívida traz benefício, mas os juros só oneram”.

Na avaliação de Neri, o quadro dos super endividados do Rio reflete a situação do estado:

“Mais do que uma mega recessão, tivemos no Rio uma parada súbita. Crescemos com o boom do petróleo, as Olimpíadas, e depois caímos do Olimpo no precipício. Como o governo do Estado, os cidadãos, apostando na continuidade, se endividaram e agora também não conseguem se equilibrar. (de O Globo)





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