O cenário benigno lá fora mudou para o BC?

18/09/2019



O editor-executivo do Valor Econômico, Cristiano Romero, lembra em sua coluna que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reúne hoje e deve baixar a taxa básica de juros (Selic) de 6% para 5,5% ao ano, o menor patamar desde o lançamento do real, em 1º de julho de 1994.

No último boletim Focus, a mediana das expectativas de mais de 107 instituições consultadas pelo próprio BC prevê Selic a 5% no fim deste ano. A dúvida é saber se fatos recentes, como os atentados na Arábia Saudita e a intervenção inesperada do Federal Reserve no mercado doméstico, não mudaram o “cenário externo benigno” projetado pelo Copom em seus comunicados.

No caso dos atentados a instalações petrolíferas no Oriente Médio, o problema será bastante sério se os sauditas não cumprirem o que estão prometendo, que é retomar em prazo exíguo parte da produção afetada. O que se soube dois dias depois dos ataques é que o beneficiamento de quase metade do petróleo extraído pela Arábia Saudita -- 6 milhões de barris por dia -- foi paralisado. Infelizmente, notícias vindas daquele país não são 100% confiáveis.

Petróleo e Fed ainda não configuram reversão de ambiente.

O petróleo foi a causa das principais crises econômicas na segunda metade do século XX. Dados da EIA (sigla em inglês da agência americana que provê informações sobre energia) mostram que a Arábia Saudita, com 12,42 milhões de barris por dia, é o segundo maior produtor de petróleo do planeta, ficando atrás apenas dos EUA (17,87 milhões de barris por dia), e o principal exportador. Para os curiosos: o Brasil, com 3,43 milhões de barris por dia em 2018, já é o nono no ranking dos maiores produtores, à frente de produtores tradicionais como Kuait, México e Venezuela.

O surgimento nos últimos 20 anos de novas fronteiras de extração, como a da camada pré-sal no Brasil, e o salto extraordinário da produção americana graças ao gás de xisto, podem minimizar o problema, mas é algo ainda a se confirmar.

O outro evento desta semana animada no exterior foi a intervenção do Fed ontem no mercado doméstico, para dar liquidez a bancos e empresas, algo que não ocorria desde a crise global de 2008.

Falta de liquidez numa economia em que a taxa de juros de referência está no intervalo entre 2% e 2,5% ao ano? Como assim?

A grave crise de 2008 obrigou o Fed e outros bancos centrais de economias avançadas a adotarem medidas que, em outros tempos, seriam pejorativamente tachadas de heterodoxas. A forma encontrada pelo Fed para lidar com uma crise que jogou à lona bancos tradicionais, como o Bear Stearns e o Lehman Brothers, e abalou a estrutura de grandes instituições financeiras, como o Citibank (hoje, Citigroup), e de empresas como General Motors e Chrysler, foi injetar dinheiro na economia de um modo nada convencional -- comprando títulos emitidos pelo Tesouro americano e papéis lançados pelas empresas.

O objetivo era reduzir as taxas de juros, que já estavam em níveis historicamente baixos, a patamares nunca vistos antes. Olhando em perspectiva: ao forçar a queda dos juros para algo próximo de zero e comprar títulos públicos, o Fed criou uma forma de financiar o Tesouro americano a um custo baixíssimo, viabilizando as condições para o governo salvar companhias e bancos que estavam à beira do precipício, o que foi feito em inúmeros casos, sendo os do Citigroup e da GM os mais notórios.

Essa política fez o balanço patrimonial do Fed saltar de US$ 900 bilhões em 2008 para US$ 4,5 trilhões em 2015. Conhecida como “quantitative easing” (afrouxamento monetário), o que o Fed fez foi nada mais nada menos que financiar o Tesouro, um pecado venal, inclusive no Brasil, onde um presidente foi acusado de usar bancos estatais para cobrir despesas orçamentárias, o que é de fato ilegal -- no Congresso, o leitmotiv da acusação contra Dilma Rousseff foram essas “pedaladas”, mas o real motivo da perda do mandato foi político (ausência de maioria na Câmara e no Senado para defendê-la).

A mágica do Fed deu certo. Em 2010, a maior economia do mundo saiu da lama e voltou a crescer. Nos anos seguintes, o ritmo acelerou, chegando a superar incríveis 5% ao ano no terceiro trimestre de 2014. Mas “as consequências vêm depois”, costumava dizer o ex-senador Marco Maciel, inspirado no Barão de Itararé.

As duas principais: a dívida pública americana aumentou de menos de US$ 10 trilhões para US$ 20 trilhões; e o Fed, credor em US$ 4,5 trilhões do governo e das empresas, precisa fazer o caminho de volta para casa sem criar marola, isto é, sem apertar excessivamente as condições de liquidez do Tesouro e do setor privado, do contrário pode provocar uma recessão.

O caminho de volta para casa é desconhecido e pode fomentar turbulências como a ocorrida ontem. O que aconteceu pode ter sido puramente técnico, a “tempestade perfeita”, uma vez que combinou data de pagamento massivo de impostos com aumento das incertezas sobre o que o Fed fará na reunião de hoje. E da dúvida sobre o tamanho necessário das reservas bancárias depois de anos de farta liquidez. Pode ser tudo, inclusive nada. Os mercados não se abalaram com o alarido vindo dos EUA, mas...

No balanço de riscos que emolduram suas decisões, o (nosso) Banco Central apontou o seguinte na última ata do Copom, no fim de julho:

1) o nível de ociosidade elevado da economia pode continuar a manter a inflação abaixo do esperado, uma vez que, nessa situação, as empresas podem aumentar a produção sem pressionar os preços; isso não mudou de lá para cá;

2) “uma eventual frustração das expectativas sobre a continuidade das reformas e ajustes necessários na economia brasileira pode afetar prêmios de risco e elevar a trajetória da inflação”; convenhamos que, embora a reforma da previdência ainda não tenha sido votada pelo Senado, ninguém espera retrocesso;

3) o risco anterior (2) se intensifica no caso de reversão do cenário externo benigno para economias emergentes; o cenário mudou, mas ainda não houve reversão; ademais, o BCE, o BC da zona do euro, decidiu voltar ao QE para não deixar a economia entrar em recessão.

Na mesma ata, o Copom diz que o balanço de riscos evoluiu de maneira favorável e que o risco 2 ainda é “preponderante”. Se não há risco em relação às reformas e o cenário externo piorou, mas não é necessariamente nebuloso, o saldo é positivo e a taxa Selic cai hoje e cairá mais adiante. (do Valor Econômico)