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O Real ganha destaque em ano de dólar fraco no mundo

10/01/2019

O Real ganha destaque em ano de dólar fraco no mundo


Depois de ser praticamente o único "vencedor" no ano passado, o dólar começa 2019 em tom bem mais fraco em todo o mundo e o maior beneficiado disso é o real brasileiro.

O mercado local é o grande destaque num ranking das principais moedas internacionais, com valorização de mais de 5% ante o dólar. E, para analistas, a liderança do real num contexto de dólar fraco tem ares de prenúncio do que deve acontecer, pelo menos, nos primeiros meses do ano.

De uma lista de 33 pares, o dólar perde terreno em relação a 28 neste início de ano, num movimento que é encabeçado pelo real. Ontem não foi diferente: a moeda local liderou os ganhos durante boa parte da sessão, e o dólar fechou em baixa de 0,89%, aos R$ 3,6823, menor nível desde 26 de outubro.

Especialistas apontam que o Brasil tem vantagens relativas -- como o ciclo de recuperação econômica e a agenda de reformas --, que devem garantir um bom desempenho do câmbio brasileiro, depois de dois anos nas piores colocações.

"Agora que a economia global começa a suavizar o crescimento, a expectativa é de que o Brasil se afaste, de vez, dos anos de recessão, com o impulso adicional das iniciativas de cunho fiscal", diz Rodrigo Borges, diretor de investimento de renda fixa e multimercado da Franklin Templeton.

O caso local já seria suficiente para "blindar" o mercado de turbulências, mas deve servir de combustível para a valorização do real num contexto de dólar fraco no mundo.

Gabriel Gersztein, chefe global de estratégia de mercados emergentes do BNP Paribas Brasil, aposta que o real vai se apreciar tanto em termos absolutos quanto na comparação com outros pares. "O risco é bem menor do que do ano passado. O cenário de aperto monetário mais duro do Fed e de crescimento maior nos Estados Unidos não se aplica mais. Aqui, já não temos a incerteza da eleição", diz.

O começo do governo de Jair Bolsonaro abre caminho para maior negociação com o Congresso Nacional, o que deve elevar as chances de aprovação de reformas, explica o estrategista Zach Pandl, do Goldman Sachs. Ainda assim, ele classifica os desafios à implementação desses ajustes como "significativos".

O pano de fundo para o cenário benigno ao real é o exterior, explica Pandl, para quem o Fed mais data-dependent (ancorando aos dados) cria espaço para mais desvalorização do dólar no mundo.

Ontem, o índice DXY -- que mede o valor do dólar ante um uma cesta de moedas -- caiu 0,8%, voltando ao menor patamar desde outubro passado. O índice recua 1% no acumulado de janeiro, no segundo mês seguido de baixa. Há um ano o dólar lá fora não engatava dois meses seguidos de depreciação.

De forma geral, estrategistas não veem uma forte queda global da moeda. A economia americana ainda vai bem, enquanto os juros por lá devem se manter pelo menos estáveis, garantindo aos Estados Unidos o posto de país desenvolvido com maior taxa de retorno na renda fixa (elemento com grande peso nas expectativas para o câmbio). Mas é a mudança na margem de perspectiva para essas variáveis que joga contra o dólar.

Em 2018, os EUA provavelmente registraram a maior taxa de expansão econômica desde 2005. Com isso, a diferença de performance em relação ao restante do mundo subiu para 33 pontos-base, o maior spread desde 1999.

Para 2019, porém, a expectativa  é de  que esse gap fique ligeiramente negativo (-3 pontos-base), evidenciando a perda relativa de vigor dos EUA em relação ao restante do mundo. A análise desses números é importante porque, historicamente, o dólar caminha junto com os diferenciais de crescimento entre os EUA e as demais economias.

Até outubro, o mercado financeiro dava como certo pelo menos mais duas altas de juros nos EUA em 2019. Hoje, não apenas investidores zeraram essa aposta como agora não descartam a hipótese de corte.

Enquanto isso, zona do euro e outras regiões estão mais inclinadas a elevar as taxas, o que reduziria a "vantagem" americana em termos de taxa de juros. Com um menor diferencial de juros, cai a atratividade dos ativos de renda fixa dos EUA, o que tende a reduzir o fluxo para essa classe de ativos.

"A recente sinalização mais flexível do Fed era algo até esperado, mas veio de maneira mais explícita, o que realmente coloca uma nuvem sobre o dólar", diz Ilya Gofshteyn, estrategista macro do Standard Chartered Bank em Nova York.

Para ele, tanto o tom mais moderado do banco central americano quanto a desaceleração do crescimento tomam forma de elementos permanentes para os próximos meses, o que consolida a tendência de enfraquecimento do dólar.

No caso do real, Gofshteyn estima que a moeda brasileira se valorize para 3,50 por dólar já neste primeiro trimestre. Isso equivale a uma apreciação de quase 11% ante o fechamento de 2018.

"Para o restante do ano é difícil dizer, mas certamente para o primeiro trimestre o real é nossa maior aposta", afirma o estrategista. (do Valor Econômico)





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