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Pessimismo com o ano faz a projeção do PIB ficar em 1,5%

01/06/2018

Pessimismo com o ano faz a projeção do PIB ficar em 1,5%


Atropelado pelos acontecimentos de maio, o PIB do primeiro trimestre -- em linha com o esperado -- pareceu um número relativo a um período ainda mais distante. Mesmo antes de conhecido o resultado de janeiro a março, a greve dos caminhoneiros já havia provocado uma onda de revisões para baixo nas projeções para 2018.

Se antes da paralisação o sentimento entre os economistas era de que a recuperação tinha descido um degrau, depois dela, falar em expansão abaixo de 2% parece algo prestes a virar lugar comum.

De 16 instituições financeiras ou consultorias que responderam ao Valor Econômico, 12 revisaram para baixo a projeção para o crescimento do PIB deste ano. Com isso, a estimativa média caiu de 2,25% para 1,86%. Além disso, a projeção de pelo menos quatro dessas casas tem viés de baixa. Já não são tão raras projeções mais próximas de 1,5%, como a do Bank of America, e já há quem, como a 4E ou a Arx Investimentos fale em algo até abaixo disso.

Na última quarta, uma frase bastante ouvida entre os analistas foi a de que o ano seria "daqui para pior". A piora na percepção sobre o ritmo da atividade fica clara nas previsões para o segundo trimestre. Antes, se esperava taxa em torno de 0,8%, acima da registrada nos três primeiros meses do ano, Agora, a expectativa é de algo próximo de zero. No primeiro trimestre, ante o último do ano passado, o produto cresceu 0,4%.

As estimativas sobre os efeitos diretos e indiretos da greve variam de retirada de 0,3 a 1 ponto percentual no PIB do ano. Além da parada na produção de diversos setores, a leitura é que haverá um abalo na confiança de empresas e consumidores, que já vinha caindo. A piora nas expectativas deve ajudar a frear os investimentos, uma das linhas que mais decepcionaram no PIB do primeiro trimestre.

O PIB de 2018 aponta " claramente para abaixo de 2%", diz o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, que cortou sua estimativa para 1,8%. Um cenário externo menos amigável aos emergentes, as incertezas políticas e a greve dos caminhoneiros não deixam espaço para crescimento no segundo trimestre.

"O PIB vai para zero no período. Talvez piore", diz o economista, para quem, nas próximas semanas, uma onda de revisões deixará a média de projeções mais perto de 1,5%.

Bráulio Borges, economista-sênior da LCA Consultores, observa que a herança estatística deixada pelo período de janeiro a março para o resto do ano, de 0,9%, torna difícil o crescimento de 2,4% projetado pelo consenso mais recente de mercado do Boletim Focus.

"O PIB teria que alcançar um ritmo médio dessazonalizado próximo de 1% por trimestre, vindo de um ritmo médio de 0,3% entre o terceiro trimestre de 2017 e o primeiro deste ano", resume ele, que vê como bastante provável uma variação próxima de zero do PIB no segundo trimestre, ainda que seja difícil precisar no momento o impacto da greve sobre a atividade no período. A LCA, que trabalhava com avanço do PIB de 2,5% neste ano, vê agora "expansão mais próxima" de 2,2%.

O banco Fibra acredita que a greve vai tirar 1 ponto percentual do PIB neste ano e por isso revisou a projeção de 2,8% para 1,8%. Desse corte, 0,7 ponto se deve aos efeitos diretos da paralisação e 0,3 ponto, aos indiretos, como a deterioração das expectativas. O Votorantim, que reduziu a projeção do PIB de 2,2% para 1,8%, vê impacto negativo de 0,2 a 0,3 ponto.

Para o Santander, a greve deve tirar 0,7 ponto percentual do produto em 2018. "Há o impacto direto de perdas de produção, comércio e serviços, e o indireto, que é o abalo da confiança", afirma o economista Rodolfo Margato.

A confiança, que já vinha caindo desde abril, pode recuar mais, o que levaria a um crescimento mais moderado no terceiro e quarto trimestres. Para o período de abril a junho, o banco revisou a estimativa de alta de 0,8% para 0,2%. No ano, a projeção foi de 3,2% para 2%. O 0,5 ponto restante na revisão de 2018 se deve à frustração com a atividade no início do ano, confirmada pelo PIB do primeiro trimestre.

Segundo Margato, um crescimento abaixo de 2% não é o cenário do banco, mas há essa possibilidade. Ele pondera que, antes da paralisação, já havia cortes nas estimativas de atividade, um movimento que deve se tornar mais amplo a partir de agora. "O Focus deve mostrar nas próximas semanas revisões consideráveis no PIB".

Quanto ao resultado do primeiro trimestre, o mercado de trabalho foi determinante para a desaceleração em relação ao previsto. Nesse aspecto, as perspectivas não são das melhores. "O ritmo do emprego formal está bem abaixo do exigido para chegar à nossa previsão de 900 mil vagas criadas neste ano". Essa lentidão na retomada do emprego continuará a ter seus efeitos sobre o comércio e os serviços.

A decepção de janeiro a março foi a alta de 0,6% no investimento, diz Margato, que estimava 1,1%. Nesse quesito, a construção civil frustrou, após uma melhora apontada no fim de 2017. "E esse componente do investimento é o que mais vai sentir o abalo da confiança à frente."

Por isso, o Santander reduziu a projeção para a formação bruta de capital fixo, de 7% para 4,5% neste ano. Para Gonçalves, do Fator, a perspectiva para o investimento nos próximos trimestres é "horrível".

"É difícil alguma empresa definir planos antes de outubro. Estão com a mão no freio." Ele chama atenção para o fato de que, em 12 meses, o investimento ainda tem queda, ainda que pequena, de 0,1%, para um PIB que cresce 1,3%.

O dado do investimento vai puxar as revisões de mercado para baixo porque embute um crescimento abaixo do esperado no início do ano, afirma o economista-chefe da Mogno, Vagner Alves. "Quem tinha 3% de projeção acreditava num crescimento mais forte dos investimentos", diz.

A Mogno revisou o PIB de 2,2% para 1,7%. Outra casa a cortar a estimativa foi a Rosenberg, de 2,2% para 2%. A consultoria espera expansão de até 0,2% de abril a junho.

Para o consumo das famílias, que cresceu 0,5% no primeiro trimestre, ante o quarto do ano passado, a perspectiva também é de baixo crescimento, diante de uma taxa de desemprego insistentemente alta. "Houve de fato um crescimento no primeiro trimestre, via crédito, mas o que já se conhece de abril e maio e a perspectiva para junho não são favoráveis", diz Gonçalves, do Fator.

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, revisou a estimativa para 2018 de 2,5% para 1,9%. Ele diz que essa previsão só é válida "se tudo der certo". Mas o segundo trimestre não traz sinais animadores.

"Os dados têm mostrado piora adicional em abril, que, ao se juntar com a greve dos caminhoneiros, pode levar a um resultado do segundo trimestre ainda mais baixo do que foi o primeiro".

A conjunção de fatores negativos em âmbito doméstico e externo fica evidente na piora do investimento no trimestre, avalia. Para a MB, apesar do bom desempenho do setor agropecuário neste ano e do esperado impacto positivo do câmbio sobre as exportações, não deve haver um efeito de difusão sobre a economia, em meio às expectativas negativas.

"A preocupação se estende para 2019, ano que deverá ser de continuidade de ajuste fiscal e incerteza sobre impactos adicionais da política monetária, no meio de uma possível normalização da inflação para próximo da meta." (do Valor Econômico)





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