BLOG

Profissionais aprovam gestão à moda dos sócios chineses

14/05/2018

Profissionais aprovam gestão à moda dos sócios chineses


Você já tem um colega de trabalho chinês? Se a resposta for negativa, é possível que ela mude em breve. No ano passado, a China investiu US$ 20,9 bilhões no Brasil, maior valor já registrado desde 2010, de acordo com o Ministério do Planejamento.

Foi o segundo país que mais adquiriu companhias brasileiras em 2017 em volume de investimentos, com R$ 12,2 bilhões, e o terceiro em número de empresas, com 12 transações, segundo dados do relatório anual Transactional Track Record (TTR).

Corporações locais que ganharam sócios chineses nos últimos anos já viram mudanças na gestão e na área de RH. Há relatos de reuniões mais curtas e produtivas, planejamento de trabalho a longo prazo e novidades na capacitação e no recrutamento de executivos.

Aulas de mandarim são ouvidas nas salas das diretorias e currículos que indicam conhecimento do idioma podem sair na frente nas seleções. Os funcionários orientais continuam minoria nos quadros, mas chegam ao Brasil para ocupar posições-chave.

Na CPFL Energia, com 13,5 mil funcionários, das 30 diretorias, pelo menos 20 têm diretores-adjuntos chineses. A primeira comitiva chegou em janeiro de 2017, com 16 membros, quando a companhia chinesa de energia State Grid concluiu a aquisição de 54,6% de participação no grupo.

"Uma das principais características da nova gestão é o modo de fazer reuniões, mais rápidas e produtivas", diz o diretor de RH, Rodrigo Ronzella.

O executivo, que trabalhou em multinacionais controladas por japoneses, irlandeses e americanos, afirma que os chineses gostam de participar de reuniões apenas para bater o martelo em temas já discutidos.

"Também são voltados para planejamentos de longo prazo, de no mínimo cinco anos", diz o diretor, que divide o horário de expediente com um adjunto oriental. Os dois se falam em inglês, mas a empresa contratou quatro tradutores para facilitar a comunicação entre as equipes.

Ronzella se surpreendeu com algumas atitudes dos novos integrantes, abertos à criação de ideias e ao desenvolvimento de pessoas. Há um mês, foi feita a primeira contratação de uma assistente executiva brasileira que fala mandarim, para atuar junto ao CEO adjunto chinês. "Teremos mais admissões de currículos com fluência no idioma."

Para acelerar uma integração de mão dupla, a CPFL organizou palestras para os brasileiros com convidados que haviam morado na China e comemorou o Ano Novo Chinês, em fevereiro, na unidade de Campinas, onde residem quase todos os executivos que vieram da State Grid.

Recentemente, anunciou um crescimento de 41,4% no lucro líquido em 2017, para R$ 1,2 bilhão, ante 2016. Até 2022, estão previstos investimentos de R$ 10,4 bilhões, a maior parte na área de distribuição de energia.

Também no setor elétrico, a CTG Brasil, subsidiária da China Three Gorges Corporation, nasceu sob gestão oriental em 2013 e continua fazendo aportes em escala. Em 2014, adquiriu participações em usinas como Cachoeira Caldeirão (AP) e Santo Antônio do Jari (PA). Um ano depois, comprou parte do controle de 11 parques eólicos. Hoje está presente em dez Estados e é considerada a segunda maior produtora privada de energia do país.

"Há uma grande oportunidade de aprendizado para ambas as partes", analisa Geisa Angeli, diretora de RH da CTG Brasil. "Somos o país com o maior desenvolvimento em hidrelétricas do mundo e os chineses criaram as usinas mais modernas." A China Three Gorges é responsável pela operação da Três Gargantas, maior hidrelétrica em energia gerada do planeta.

A área de Geisa cuida de cerca de 760 funcionários no Brasil, sendo 22 chineses. A maioria dos orientais tem entre 26 e 35 anos de idade. Somente no projeto de modernização das usinas Jupiá e Ilha Solteira (SP), avaliado em R$ 3 bilhões e com duração prevista de dez anos, há dez engenheiros chineses trabalhando com o time local, de mais de 300 pessoas.

No departamento de RH, dos 17 funcionários, uma veio da China. Si Qu, de 27 anos, saiu de seu país para trabalhar na CTG em agosto de 2016. Da área de mobilidade global, ela foi destacada para cuidar de assuntos relativos aos expatriados. Já no conselho da empresa, apenas um VP e o presidente, Li Yinsheng, são chineses, ambos com experiência internacional -- o grupo atua em mais de 40 países.

Segundo Geisa, o presidente, que é morador da capital paulista desde 2014, estuda português há três anos. Ao mesmo tempo, quatro diretores brasileiros se dedicam ao mandarim e outros seis profissionais usam um programa interno de subsídio a estudos a fim de aprender o idioma. "Cerca de 20 funcionários já estiveram na China, em reuniões com departamentos correspondentes no país."

De olho nesse fluxo de executivos, a empresa montou há dois anos um programa de integração baseado em palestras, que já envolveu cerca de cem funcionários. Abordam temas como ambiente de negócios e exemplos de sucesso e fracasso em processo de internacionalização.

Outra ação, criada em 2016 e batizada de Buddy (camarada, em inglês), permite que um funcionário brasileiro seja voluntário para ajudar um colega chinês nos primeiros meses de Brasil. "Todos os expatriados já participaram da experiência", diz.

Antes de chegarem, os funcionários enviam e recebem vídeos do futuro companheiro de trabalho, mencionando hobbies. Os voluntários locais são encorajados a buscar os colegas no aeroporto, no dia da chegada.

Na Rio Bravo, administradora de investimentos comprada em 2016 pela holding Fosun, a aterrissagem dos novos controladores trouxe mudanças mais sutis, segundo o CEO, Carlos Henrique Zanvettor. "Continuamos com o DNA dos sócios fundadores, porém somos integrados como uma plataforma regional de um grupo global."

A empresa com sede em São Paulo tem 80 funcionários, dos quais 19 são sócios. "É uma relação simbiótica", diz. A Rio Bravo é como a Fosun: se faz presente na América Latina enquanto implementa a capacidade de investimento do grupo na região, afirma Zanvettor, que acaba de substituir Mario Fleck na posição de CEO, em um processo de sucessão já promovido pelos chineses. Fleck permanece no quadro societário, que inclui o economista e ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco.

"Também revisamos a nossa organização, consolidando as operações de investimentos imobiliários, e expandimos os times no segmento de líquidos [renda variável, fixa e multimercados]", diz.

Para acompanhar a mudança, desde o início do ano passado a equipe da Rio Bravo fez várias viagens à China e outros locais onde a Fosun opera. Criada em 1992, a gigante asiática se espalha por 16 países e já investiu em mais de 50 companhias.

Na relação com as novas chefias, Zanvettor percebe um forte viés empreendedor do comitê executivo e uma disciplina quase obsessiva por novos investimentos. "Mas também convivemos com a tolerância às indefinições no escopo de áreas, acompanhada de estímulos às práticas de meritocracia."

A maioria dos interlocutores do executivo na Fosun, residentes em Xangai, é de graduados em escolas de negócios americanas e europeias. "O inglês prevalece nas interações mas, em 2017, iniciamos um programa de aprendizado do mandarim no time brasileiro", diz.

Os programas de incentivo e retenção de talentos na Rio Bravo já passavam por reformas importantes, mas agora há planos de curto prazo para investir no desenvolvimento de lideranças.

Nos últimos 12 meses, a empresa contratou o equivalente a um terço do quadro atual. As admissões não incluem chineses expatriados. "O investimento em talentos locais é parte da estratégia da Fosun e da Rio Bravo."

A prática também é adotada pelo controlador em outras operações fora da China. "Entretanto, já acrescentamos o conhecimento do mandarim no recrutamento, como um critério desejável."

Uma das contratações foi a gerente de RH Xiaoying Zhang. Residente no Brasil, a executiva chinesa atuava no setor há sete anos. "A vantagem de dominar o idioma agiliza as conexões com as equipes", diz Zanvettor. "O chairman da Fosun, Guo Guangchang, nos lembra frequentemente que o nosso objetivo é construir uma corporação vencedora, com traços chineses e locais."(do Valor Econômico)





Cursos