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PT descarta substituir Lula como candidato ao Planalto

09/04/2018

PT descarta substituir Lula como candidato ao Planalto


A prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não altera os planos da direção do PT de inscrevê-lo como candidato a presidente da República nas eleições programadas para outubro. Pelo menos no primeiro momento.

Porém, a detenção do líder máximo da sigla pode ser considerada o mais severo teste de stress dessa orientação desde que ela passou a ser repetida por dirigentes partidários de diferentes escalões.

Para quem observa de fora, a ideia pode parecer um desatino, uma negação da realidade, um suicídio político. E não apenas por causa da prisão. Mesmo solto, Lula teria pela frente a barreira considerada intransponível da Lei da Ficha Limpa, norma que impede a candidatura de quem tem condenação em segunda instância, como é o seu caso.

Para os petistas que estão levando a cabo a ideia de manter a candidatura do ex-presidente, porém, trata-se de cálculo político. E dos mais pragmáticos. Consideram isso o único caminho possível para minimizar o desastre eleitoral no momento mais crítico da história do partido.

Nos últimos meses, a expressão que se consagrou como síntese dessa orientação é a palavra de ordem "não há plano B", repetida à exaustão em palanques, artigos e entrevistas. Nem o mais convicto lulista, porém, sabe explicar como, na prática, Lula fará para liderar a própria candidatura de dentro da cadeia.

A tese "Lula até o fim" sempre foi defendida com convicção enquanto a prisão do petista estava no campo das possibilidades. Agora que se tornou uma realidade, essa determinação pode começar a expor, de forma mais explícita, a falta de rumo do partido.

Internamente, quem discorda do caminho até agora não encontrou clima para expressar a divergência. Há quem chegue a dizer, jocosamente, que "a estratégia adotada" consiste em "jogar gasolina no próprio corpo".

Mas, sinal da complexidade da situação, os próprios divergentes admitem que, embora não gostem do caminho prevalecente, não têm plano alternativo para apresentar.

Um trecho do discurso de Lula no sábado, proferido algumas horas antes de se entregar, dá uma amostra da gravidade da situação. É uma fala que, conforme a leitura, denota insegurança de Lula em relação à própria autoridade interna, o que parece inédito na história do partido.

"Quando eu percebi que o povo desconfiava que só tinha valor no PT quem era deputado, sabe o que eu fiz? Eu deixei de ser deputado. Porque queria provar ao PT que eu ia continuar sendo a figura mais importante do PT sem ter mandato", disse ele à multidão de apoiadores que não queria a sua prisão. O mais surpreendente veio na sequência: "Porque se alguém quiser ganhar de mim no PT, só tem um jeito: é trabalhar mais do que eu e gostar do povo mais do que eu. Porque, se não gostar, não vai ganhar", completou.

A pergunta que ficou no ar é: quem quer "ganhar" de Lula dentro do PT?

É uma questão especialmente intrigante haja vista a notável intensificação da presença de Lula no partido. Desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, ele passou a participar com mais frequência das reuniões da Executiva e do Diretório Nacional.

Igualmente notáveis eram as idas semanais da senadora Gleisi Hofmann (PT-PR) à sede do Instituto Lula para discutir que linha seguir nos debates internos. Seu mandato na presidência do partido vai até o ano que vem. Nos últimos meses, ela se destacou como uma das maiores propagadoras do mantra "não há plano B".

Enquanto não houver segunda ordem, petistas prometem seguir passo a passo todas as etapas eleitorais de uma candidatura convencional, como se nada estivesse acontecendo com Lula na esfera judicial. "Preso ou não, vamos inscrever o nome de Lula na disputa no dia 15 de agosto", disse ao Valor o ex-presidente da sigla Rui Falcão na quinta passada, poucas horas antes da divulgação do mandado de prisão expedido pelo juiz Sergio Moro.

É só a partir do ato de inscrição que a Justiça Eleitoral poderá se manifestar sobre a viabilidade da candidatura. Ninguém duvida que será barrada. Até que isso ocorra, entretanto, o PT poderá fazer propaganda eleitoral de Lula, inclusive na TV. Mesmo se o líder estiver preso.

As premissas dos defensores dessa orientação podem ser resumidas em três pontos. A primeira é que o poder de transferência de votos de Lula será maior quanto mais próximo for sua expulsão definitiva da eleição. Hoje, Lula tem algo próximo a 35% nas pesquisas. De maneira geral, estima-se que possa transferir até um terço disso meramente apontando quem seria o seu preferido. É esse potencial nada desprezível que buscam preservar.

A segunda premissa é de que a indicação de um candidato alternativo neste momento, quando todas as energias estão concentradas na defesa de Lula, transformaria o personagem em presa fácil dos adversários. Partem do pressuposto que o nome seria imediatamente bombardeado pela imprensa e pelo Ministério Público antes mesmo de estruturar a campanha.

A terceira premissa é que, efetivamente, o PT não dispõe de um nome como patamar nacional mínimo de votos que possa ser classificado ao menos como competitivo. Seria diferente se algum outro petista tivesse algo próximo a 10%. No campo mais ao redor, o único que tem isso é o ex-ministro Ciro Gomes, mas ele é do PDT.

‘No último ato público antes da prisão, Lula consolidou sua aproximação com o Psol e do PCdoB, com elogios aos presidenciáveis Guilherme Boulos, "companheiro da mais alta qualidade", e Manuela D'Avila. Com gratidão, tratou ambos, porém, como figuras importantes para o futuro.

Em nenhum momento Lula fez menção ao ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad como possível candidato. Oficialmente, ele foi escalado para fazer o programa de governo do PT.

Em seu último discurso, Lula referiu-se a ele como o ex-ministro responsável pelo "melhor período de investimento na educação deste país". Chamou a atenção, porém, a presença praticamente diária de Haddad ao lado de Lula nas últimas semanas. Ele é sempre citado, sob reserva, como alternativa ao ex-presidente.

O ex-prefeito teve participação discreta nos atos de Curitiba e São Bernardo. Mas foi um dos mais aplaudidos depois de Lula. (do Valor Econômico)





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