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Recuperação lenta frustra expectativas de crescimento

28/03/2018

Recuperação lenta frustra expectativas de crescimento


Após o mais longo período recessivo que o país já atravessou, ainda há dúvidas se conseguiremos crescer perto de 3% neste ano. Os primeiros números de 2018 de indústria, comércio e serviços vieram contraditórios. E o Banco Central sinalizou nesta terça-feira, na ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que continuará baixando os juros, atualmente em 6,5%, o nível mais baixo da História, para estimular a economia.

Em janeiro, a produção industrial caiu 2,4%, o comércio subiu 0,9% e os serviços tiveram retração de 1,9%. Não há reação ainda nos preços. O crédito ficou estagnado (queda de 0,2%) em fevereiro. Especialistas não têm dúvidas de que a atividade continuará crescendo, mas há incerteza sobre o ritmo.

“Ainda vai levar um tempo para o crescimento gerar inflação. A recessão foi muito profunda, temos capacidade ociosa elevada. Não se imaginava que, na saída da crise, os números fossem muito intensos. Estão dentro da expectativa diante do que foi destruído no passado — afirma Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, que prevê crescimento de 3% com inflação baixa.

Segundo ele, o uso da capacidade instalada da indústria está em 76%, chegou a 73,2% em dezembro de 2016, o pior momento, mas, entre 2010 e 2013, a média era de 84%:

“Há espaço para crescer sem inflação. Somente em 2019, o crescimento deve pressionar a inflação”.

Flávio Castelo Branco, gerente executivo de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), esperava números mais robustos depois da recessão que fez o Produto Interno Bruto (PIB) recuar perto de 8%. Nas crises anteriores, a recuperação veio mais forte e rápida.

“Temos capacidade ociosa alta, houve melhora na situação financeira de famílias e empresas, a taxa de juros vem caindo, o medo do desemprego diminuiu. Deveríamos ver uma recuperação mais intensa. Não estou negando a recuperação, mas não tem o vigor esperado em uma situação como essa”, diz Castelo Branco, que espera alta de 3% na produção industrial este ano.      “Nas sondagens com a indústria, já vemos intenção de contratação.

Desemprego alto. Um dos motivos apontados pelos especialistas para essa reação tímida é o mercado de trabalho. Apesar de a taxa de desemprego ter caído — chegou a 13,7% em março de 2017 e atualmente está em 12,2% —, ainda há 12,7 milhões de desempregados, e as ocupações que fizeram a taxa cair foram informais, o que dificulta a tomada de crédito e cria insegurança nas famílias, inibindo o consumo.

Já há reação no emprego formal (foram criadas 61.188 vagas com carteira em fevereiro), mas os postos de trabalho são de salário baixo. Silvia Matos, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), chama atenção à qualidade do emprego, inclusive os formais. Nessa criação recente, predominaram as vagas de um salário mínimo a 1,5 salário mínimo:

“É natural que isso aconteça diante da ociosidade do mercado de trabalho, mas limita o consumo das famílias”.

Pelo cálculo da economista, a massa de rendimentos, que subiu 5,5% acima da inflação em 2017, deve ficar apenas 1,5% acima da taxa em 2018:

“Quem esperava um crescimento de 4% a 4,5% neste ano realmente deve estar frustrado com os resultados. Mas nós já estávamos prevendo 3%. Apenas alteramos nossas previsões de inflação (de 3,5% para 3,3%) e dos juros, para 6,25% (estava em 6,5%). Teremos o mesmo crescimento, com inflação e juros menores.

Thaís Marzola Zara, economista-chefe da Rosenberg Associados, espera 2,8% de alta do PIB neste ano. Ela acredita que os juros devem chegar a 6% no fim do ano. Para a analista, essa recuperação oscilante já era esperada:

“De fato, há um ou outro dado que veio um pouco pior, com alguns sinais ruins, mas nada que destoe do nosso cenário de recuperação gradual para este ano”.     Em dezembro, o IBC-Br teve uma alta forte, era natural que houvesse alguma acomodação em janeiro (houve queda de 0,56% no indicador que é considerado uma prévia do PIB, depois de ter subido 1,16% em dezembro). Por enquanto, esses números não configuram mudança de tendência.

Eleições. Paulo Levy, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), não vê risco na recuperação, mas afirma que há incerteza quanto à intensidade dessa reação:

“Nossa projeção é de alta de 3%, o que pressupõe crescimento relativamente forte. Os dados do primeiro trimestre até agora têm se mostrado menos exuberantes do que se imaginava no fim do ano passado. Mas os fundamentos econômicos estão positivos.

Levy cita a ocupação e o salário crescendo e os juros caindo como bons sinais. Apesar da queda de juros básicos — a taxa Selic recuou de 14,25% em outubro de 2016 para 6,5% atualmente —, o crédito não vem avançando rapidamente. Silvia, da FGV, lembra que os bancos públicos estão sem condições de oferecer mais crédito, seja habitacional, como a Caixa, ou para empresas, no caso do BNDES:

“Essa retomada pelo crédito vai ser muito mais lenta”.

Para Vale, da MB Associados, a demora da reação da economia brasileira vem da impossibilidade de o governo usar os instrumentos clássicos para reativar a economia, como aumentar o gasto público e reduzir juros:

“Tínhamos um déficit primário (receitas menos despesas antes do pagamento de juros) de 3% e inflação de 12%. Tivemos que fazer os ajustes primeiro, o que aprofundou a recessão, antes de ver o crescimento aparecer.

Vale vê riscos pelo caminho. O principal é o eleitoral. Dependendo dos candidatos que saírem na frente nas pesquisas, “tudo pode desandar”. Por exemplo, se defenderem o fim do teto de gastos (aumento das despesas públicas limitado à inflação do ano anterior) e não levarem adiante as reformas, como a da Previdência.

Castelo Branco acredita que a incerteza política já está fazendo a economia andar mais devagar:

“O investimento não está reagindo. Uma das razões para a recuperação anêmica é a incerteza com o quadro eleitoral.

Alessandra Ribeiro, sócia da Tendência Consultoria, está mais otimista. Diz que, apesar de os “dados da economia, de fato, terem vindo mais mistos neste início de ano”, considerando os efeitos defasados da política monetária e a melhora na saúde financeira de famílias e empresas, “há condições de a economia mostrar bom crescimento no ano”. (de O Globo)





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