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Retomada lenta eleva incerteza eleitoral, afirmam analistas

17/04/2018

Retomada lenta eleva incerteza eleitoral, afirmam analistas


A atividade econômica em ritmo mais lento do que o esperado neste início de ano aumenta a incerteza em uma corrida eleitoral já bastante imprevisível.

Na visão de economistas e analistas políticos ouvidos pelo Valor Econômico, a retomada aquém do previsto pode fortalecer a candidatura de nomes com baixa capacidade de tocar no Congresso as reformas que garantiriam a continuidade da política econômica atual.

Apesar dos números fracos da atividade em janeiro e fevereiro, com destaque para a desaceleração na recuperação do mercado de trabalho, os especialistas ainda resistem a alterar cenários e continuam a apostar na continuidade da retomada e eleição de um candidato comprometido com as reformas como cenário-base. Mas revisões de apostas podem acontecer ainda antes da Copa do Mundo.

O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) registrou avanço de apenas 0,09% em fevereiro, na comparação mensal ajustada, após queda de 0,65% em janeiro (dado revisado de -0,56%). Na comparação anual, a atividade cresceu 0,66% em fevereiro, abaixo dos 2,95% de janeiro, confirmando a perda de ritmo da atividade. Em 12 meses, o crescimento acumulado é de 1,32% e no ano, de 1,8%.

A expansão do mês foi menor do que a média das estimativas das instituições financeiras, que sugeria variação positiva de 0,13%. As previsões variavam entre queda de 0,4% a alta de 0,5%. O comportamento do indicador no mês de fevereiro foi influenciado pela alta de 0,2% da produção industrial, queda de 0,2% do varejo e variação positiva de 0,1% na receita de serviços no período.

Segundo Roberto Padovani, economista-chefe do Banco Votorantim, o impacto da atividade no ambiente eleitoral é direto e depende de duas dimensões. A primeira delas é o ritmo da recuperação: quanto mais intenso, menor a rejeição ao sistema político, o que favorece candidatos do "establishment".

O segundo fator é a percepção da população quanto à retomada, o que depende principalmente do emprego formal, que dá maior segurança ao trabalhador, e do nível de vendas e produção, que afeta o faturamento das empresas.

"O que está acontecendo é o pior dos mundos. Temos uma retomada mais lenta e que não tem sido percebida pela população. Isso reforça discursos populistas 'anti-establishment' e, portanto, torna o resultado da eleição incerto", afirma Padovani.

A fonte da incerteza é que esses nomes novos com discurso antissistema, como Jair Bolsonaro (PSL), Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede), teriam aparentemente menor capacidade de montar coalizões no Congresso, fortes o suficiente para aprovar mudanças constitucionais.

Num quadro marcado ainda por escândalos de corrupção e falência dos serviços públicos, o crescimento da incerteza eleitoral e a fraqueza da atividade se retroalimentam. "O aumento da incerteza eleitoral e quanto ao cenário para 2019 tende a postergar decisões de consumo, investimento, contratação e crédito, o que fragiliza a atividade. Isso gera um ciclo vicioso", observa.

Para Rodolfo Margato, economista do Santander, a aposta do banco e do mercado em geral continua sendo a de continuidade da política econômica após as eleições de outubro, com a melhora da atividade ao longo do ano fortalecendo candidaturas ditas "centristas".

No entanto, se a velocidade da retomada permanecer muito menor do que estava nas contas, como acontece neste início de ano, não haveria o reforço da economia sobre uma candidatura de centro, avalia.

"A tese geral é que, ao longo de 2018, a economia vai se recuperar de uma forma mais consistente e terá impacto mais perceptível para a população na sensação de bem-estar socioeconômico, o que tende a fortalecer as candidaturas chamadas centristas, com risco menor de ruptura em relação à política econômica atual", diz.

Para ambos os economistas, o principal elemento por trás da frustração no ritmo da atividade neste início de ano é a desaceleração da retomada do mercado de trabalho, com o emprego informal crescendo menos, sem que o trabalho com carteira assinada ocupe esse espaço.

"O empresariado de setores mais intensivos em mão de obra, como serviços e construção civil, ainda mostra uma demora na tomada de decisão de novas contratações, especialmente por ser um ano com grandes incertezas no quadro político", avalia Margato.

Na visão de Ricardo Ribeiro, analista político da MCM Consultores, a revisão ligeiramente para baixo das estimativas de crescimento para 2018 não afeta de maneira relevante o quadro eleitoral, que já não era bom para candidaturas do "establishment".

Segundo Ribeiro, apesar da crença quase unânime do mercado na vitória de um candidato reformista em outubro, o quadro eleitoral segue muito aberto. Para o cientista político, a preocupação com a eleição e com 2019 está crescendo no mercado e a definição ou não de alianças nos campos da esquerda, centro-direita e "terceira via" pode resultar em correção das apostas eleitorais já antes da Copa. (do Valor Econômico)





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