BLOG

Spread elevado e incerteza eleitoral afetam retomada

19/04/2018

Spread elevado e incerteza eleitoral afetam retomada


A atividade econômica perdeu fôlego no começo do ano, uma desaceleração que se deu num quadro formado por juros ainda muito elevados nos empréstimos, recuperação fraca do emprego, incertezas eleitorais e dúvidas quanto à saúde financeira das empresas.

Essa combinação ajuda a explicar o desempenho mais fraco nos primeiros meses do ano da indústria, do comércio e dos serviços, pelo lado da oferta, e do consumo das famílias e do investimento, pelo lado da demanda.

Diversas projeções apontam hoje para uma expansão do PIB, no primeiro trimestre, de 0,5% em relação ao trimestre anterior, feito o ajuste sazonal. É bastante inferior ao cerca de 1% que era considerado factível na virada do ano por parcela considerável de bancos e consultorias, especialmente devido à forte queda dos juros básicos.

Com isso, fica difícil um crescimento de 3% em 2018, o que exigiria uma aceleração muito expressiva nos próximos trimestres. Nesse ambiente, ganham espaço projeções mais próximas de 2,5%.

Sócio da 4E Consultoria, Juan Jensen observa que dois fatores que impulsionaram o consumo em 2017 não se repetem neste ano: a liberação de cerca de R$ 44 bilhões das contas inativas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e o aumento razoavelmente expressivo da renda em termos reais, por causa do tombo da inflação. A expectativa é de que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fique na casa de 3,5% neste ano, um pouco acima dos 2,95% do ano passado.

Para compensar a ausência desses estímulos, o crescimento do emprego e a recuperação do crédito passam a ser fundamentais, diz ele. "Mas isso tem ocorrido em ritmo insuficiente."

No crédito, o custo para quem toma empréstimos segue alto, limitando o efeito da Selic na mínima histórica, mesmo num ambiente de redução do endividamento das famílias, afirma Jensen.

O problema é a queda modesta do spread bancário (a diferença entre a taxa cobrada em financiamentos e o custo de captação dos recursos). A 4E tem uma visão mais cautelosa sobre a atividade desde a virada do ano, projetando crescimento de 1,9% em 2018.

Números da LCA Consultores mostram que o spread nos empréstimos para a pessoa física com recursos livres caiu muito pouco quando se excluem as taxas do cartão de crédito, que recuaram com mais força no ano passado, devido a uma mudança nas regras do crédito rotativo. Nas contas da LCA, esse spread estava em 45,8 pontos percentuais em fevereiro, pouco abaixo dos 49,3 pontos de janeiro do ano passado.

Para o economista-sênior da LCA, Bráulio Borges, o canal de transmissão do crédito pode estar "relativamente entupido" por causa de níveis de incerteza "ainda acima dos usuais, que limitam tanto a disposição dos bancos em emprestar mais como dos agentes em se endividar". Além disso, o aumento da concentração bancária nos últimos anos também "pode estar jogando areia" nesse canal, avalia Borges.

O consumo das famílias tem sido afetado ainda pela situação do mercado de trabalho. Grande parte da geração de vagas se concentra nos postos por conta própria ou sem carteira assinada. No setor formal, a evolução das contratações ainda não engatou.

Jensen diz que, entre outubro e janeiro, o saldo de empregos com carteira assinada ficou em 50 mil por mês, feito o ajuste sazonal. Em fevereiro, porém, o resultado ficou perto de zero, afirma ele. O dado de março, segundo Jensen, será fundamental para avaliar se o que ocorreu no mês anterior foi um ponto fora da curva ou uma alteração de tendência.      Trabalhadores com carteira têm mais segurança para consumir e se endividar.

O investimento tem se recuperado a um ritmo gradual, especialmente se considerado que chegou a cair quase 30% na crise. Um fator que parece atrapalhar uma recuperação mais forte é a situação financeira das empresas.

A A.C. Pastore & Associados chama a atenção para o crescimento do número de solicitações de recuperação judicial. Nos três meses até março, houve uma média de 137 pedidos, na série com ajuste sazonal da consultoria, uma alta em relação aos 111 da média do quarto trimestre de 2017. "O número atual é mais do que o dobro do verificado entre 2012-2013", observa o economista Marcelo Gazzano, da A.C. Pastore.

Em relatório, a consultoria observa que "dados de endividamento das empresas são escassos, e as informações disponíveis apontam que apenas as empresas de maior porte avançaram de maneira mais expressiva no processo de desalavancagem". A consultoria reduziu nesta semana a estimativa de crescimento de 2018, de 3% para 2,2%.

O investimento também já parece afetado em alguma medida por incertezas relacionadas às eleições, num cenário em que há dúvidas sobre a delicada situação fiscal do país, como diz José Ronaldo de Castro Souza Jr., diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Esse clima de incerteza afeta a decisão de contratar mão de obra, de investir e de tomar crédito, além de tornar o consumidor um pouco mais cauteloso, aponta o economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani.

Para o economista Rodolfo Margato, do Santander, "grandes segmentos do empresariado têm uma demora um pouco maior na tomada de decisão de novas contratações, especialmente por ser um ano com grandes incertezas no quadro político-eleitoral".

Ao falar sobre a atividade nos primeiros meses do ano, Souza Jr. avalia que é preciso tomar cuidado para "não levar a ferro e fogo" o comportamento de dados mensais. Eles podem oscilar de modo mais acentuado, sem que isso represente uma mudança de tendência.

Até o momento, ele não alterou a projeção de crescimento de 3% para este ano. Souza Jr. destaca que o efeito do estímulo da Selic mais baixa ainda não se verificou totalmente, também lembrando que o spread segue elevado. À medida que ele cair, o que tenderia a ocorrer nos próximos meses, o impacto da política monetária ficará mais claro, diz ele. (do Valor Econômico)





Cursos