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Tarifa de Trump faz preço do aço disparar nos EUA

30/04/2018

Tarifa de Trump faz preço do aço disparar nos EUA


A primeira granada atirada na guerra comercial entre EUA e China parece ter provocado mais um estalo do que uma explosão.

A decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, de impor em março pesadas tarifas sobre a importação de aço e alumínio desencadeou uma troca de medidas protecionistas na mesma moeda entre as duas maiores economias do mundo, com ameaças de impostos sobre todo tipo de mercadoria, desde soja e instrumentos cirúrgicos a carros e algodão.

Mas, desde então, Washington sinalizou estar preparada para encolher o alcance da ofensiva contra os dois metais que se tornaram símbolo da disputa -- ao menos para alguns países. Isso significa que as siderúrgicas em muitos países, que temiam ser pegas no fogo cruzado de hostilidades comerciais, poderiam sair relativamente ilesas, segundo analistas.

Mesmo assim, ainda pode haver uma detonação amanhã, quando vencem as isenções temporárias concedidas a alguns aliados selecionados.

México, Canadá, Argentina, Brasil e União Europeia (UE) têm até essa data para negociar acordos alternativos às tarifas -- de 25% no caso do aço e de 10% no do alumínio -- que são a resposta da Casa Branca à ameaça à segurança nacional representada pelo excesso de importação dos metais.

Com o prazo se aproximando, há esperança de que a data seja prorrogada se não houver acordos bilaterais a tempo.

"O que foi primeiro apresentado como uma tarifa abrangente, aplicada a todas as importações de aço pelos EUA, se transformou em uma política de mais nuances, que será trabalhada nas próximas semanas e meses, por meio de negociações bilaterais com parceiros comerciais essenciais", diz Seth Rosenfeld, do Jefferies.

Acordos finais favoráveis seriam um alívio para alguns nomes da indústria siderúrgica mundial, que acabaram de se recuperar após um período de turbulências provocado pelo excesso de oferta.

Empresas como a ArcelorMittal, a sul-coreana Posco e o braço britânico da Tata Steel sofreram pesados prejuízos depois que os preços do aço entraram em queda livre, em 2015.

A perspectiva de uma tarifa geral para todos, de início, causou alarme em alguns cantos da indústria siderúrgica e houve alertas quanto aos danos potenciais que seriam sentidos pelos exportadores estrangeiros, mas também quanto aos que seriam provocados pelas remessas destinadas originalmente aos EUA e que passariam a inundar outros mercados.

Esses riscos, contudo, agora parecem menores, uma vez que os países que conseguiram se salvar das tarifas representam quase 70% das 34,5 milhões de toneladas importadas pelos EUA em 2017. A Austrália anunciou ter conseguido uma isenção permanente, enquanto Japão e Turquia também fizeram solicitações similares.

"Além da China e da Rússia, é extremamente difícil prever que exportadores vão estar sujeitos à tarifa no longo prazo", escreveu Anthony J LaPlaca, da firma de advocacia Seyfarth Shaw.

Um possível modelo para outros países é o acordo que a Coreia do Sul já acertou com os EUA. Em vez de tarifas, a nação asiática vai limitar as exportações aos EUA em 70% da média dos últimos três anos. Se um sistema similar de cotas for aplicado de forma generalizada, as importações dos EUA poderiam cair entre 10% e 23% em comparação a 2017, calcula a Jefferies.

As empresas também podem solicitar isenções para tipos específicos de metais que importam. Dezenas já o fizeram.

O abrandamento da posição de Washington pode parecer ruim à primeira vista para a indústria local, que se considera vítima de práticas comerciais desleais e há muito pedia algum tipo de proteção. Mas observadores dizem que a abordagem pode ser benéfica tanto para as siderúrgicas locais, ao restringir a oferta, quanto aos exportadores isentos, que compensariam o corte no volume com a possibilidade de vender produtos com preços mais altos aos EUA.

"É, definitivamente, uma vitória para as usinas domésticas e uma vitória para os países isentos, já que deverá haver menos aço [exportado aos EUA], mas a um preço maior", diz John Foster, diretor-gerente da Partners in Steel International.

Além disso, as siderúrgicas americanas já vêm se beneficiando das dezenas de tarifas comerciais aplicadas a tipos específicos de aço, que foram considerados dumping ou subsidiados de forma ilegal.

Se isso é positivo para os consumidores de aço em um país que depende das importações para atender à demanda, é outra questão.

Os preços referenciais do aço, em possível sinal de que os compradores antecipam um mercado mais difícil, valorizaram-se mais de 30% no acumulado do ano e chegaram ao maior patamar desse 2011, segundo a empresa de fornecimento de dados GRU.

Entre os possíveis beneficiados estão os fabricantes de "produtos tubulares para países petrolíferos", como os tubos de perfuração, extração e de revestimento usados na extração de petróleo e gás. Os EUA importam mais da metade do que precisam nessa categoria de produtos, cuja demanda vem aumentando à medida que a recuperação dos preços do petróleo se consolida.

As cotas da Coreia do Sul -- que é o maior fornecedor -- poderiam se mostrar um ótimo impulso para fornecedores como a US Steel, Vallourec (França) e a Tenaris (Luxemburgo), ambas com produção nos EUA.

Para as siderúrgicas europeias, em termos mais gerais, o impacto das consequências vai depender em parte de uma investigação de Bruxelas que poderia levar a UE a impor tarifas de "salvaguarda" sobre o aço estrangeiro.

Medidas desse tipo são permitidas pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) quando uma indústria doméstica é ameaçada por aumentos na importação.

Trump também terá de considerar os pedidos de abrandamento feitos por algumas siderúrgicas domésticas que recebem material básico do exterior e alertam sobre a possibilidade de cortes de empregos e até possíveis fechamentos.

A maioria das importações dos EUA chega na forma de aço acabado, mas cerca de 20% são produtos siderúrgicos básicos, do Brasil, Rússia, México e Japão, que são processados nos EUA em um produto final e, então, vendido a montadoras, construtoras e outros clientes.

Entre as afetadas está a NLMK USA, uma produtora russa que emprega mais de 1.000 pessoas na Pensilvânia e em Indiana.

A empresa advertiu que a tarifa de 25% sobre as importações de aço básico de suas unidades na Rússia coloca em risco um investimento de US$ 670 milhões previsto para os próximos cinco anos.

Um país que dificilmente receberá algum alívio nas tarifas é a China, responsável por quase metade da produção anual de aço no mundo.

Embora tenha sido acusada de dumping de aço, a China exporta diretamente apenas uma pequena fração de sua produção para os EUA. A ironia é que as siderúrgicas chinesas, um dos principais alvos do presidente Trump, também poderão sair relativamente ilesas. (do Valor Econômico)





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