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Temor de uma guerra comercial derruba mercados no mundo

23/03/2018

Temor de uma guerra comercial derruba mercados no mundo


O Brasil se livrou, ao menos por enquanto, da sobretaxa imposta pelos Estados Unidos ao aço e ao alumínio importados. A trégua foi oficializada nesta quinta-feira para países que ainda negociam com o governo americano uma isenção permanente da cobrança — Canadá, México, Austrália, Argentina, Coreia do Sul e União Europeia também foram beneficiados.

A medida, no entanto, não representa mudança na estratégia protecionista do presidente Donald Trump. No mesmo dia em que concedeu esse alívio, o republicano anunciou uma ofensiva contra a China que prevê tarifas de 25% sobre US$ 60 bilhões em produtos importados do gigante asiático, principalmente tecnológicos.

O movimento já era esperado, mas levou tensão aos mercados, que temem efeitos de uma guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo. As ações americanas registraram a maior queda em seis semanas, com os investidores mudando o foco da decisão do Banco Central de elevar os juros para a ameaça de um guerra comercial com a China.

O índice Dow Jones perdeu 2,9%, o equivalente a 724 pontos, quinta maior perda da história em número de pontos, depois que o presidente Donald Trump decidiu impor taxas de cerca de US$ 60 bilhões a produtos chineses. O Índice S&P500 teve a maior queda desde o início de fevereiro, de 2,5%, enquanto o Nasdaq, que reúne empresas de tecnologia, perdeu 2,4%.

Mais cedo, as ações também haviam sido golpeadas com a notícia da renúncia de John Dowd, principal advogado de Trump na investigação russa de Robert Mueller, em um momento em que a investigação sobre uma possível manipulação nas eleições de 2016 se aprofunda.

O Facebook contribuiu para a queda das ações de tecnologia, com uma perda de 2,7%. A venda generalizada dos papéis tecnológicos durante esta semana se encaminha para a pior desde o início de fevereiro.

No Brasil, o mau humor externo impediu a valorização das principais ações do Ibovespa, que perdeu 0,25%. O dólar, por sua vez, teve valorização de 1,1%, cotado a R$ 3,31.

“O mercado não gosta de guerras comerciais, o mercado não gosta que o Fed se mostre determinado a subir os juros -- disse Matt Schreiber, presidente e estrategista-chefe de investimentos da WBI Investments.

 

No anúncio das tarifas às importações da China, Trump disse que o decreto era “o primeiro de muitos”. E explicou que se trata de uma resposta ao que a Casa Branca considera “agressão” à economia americana. Como importam muito mais do que exportam para a China, os EUA têm um déficit comercial com o país asiático de US$ 375 bilhões.

“É o maior déficit entre países na História mundial. Está fora de controle” — afirmou Trump, que descartou que se trate de uma provocação aos chineses. “Vejo-os como amigos. Tenho tremendo respeito pelo presidente Xi (Jin Ping, da China).

Provocação ou não, a China já anunciou que vai reagir. O país planeja impor tarifas a US$ 3 bilhões em importados dos EUA, do aço à carne de porco.

“Vamos retaliar. Se querem jogar duro, vamos jogar duro, e veremos quem vai durar mais tempo” — disse o embaixador da China nos EUA, Cui Riankai, em vídeo na página da embaixada no Facebook.

O tom foi confirmado pelo comunicado oficial de Pequim. Segundo a agência estatal Xinhua, a China tomará “todas as medidas necessárias” contra a ação imposta por Trump.

A ofensiva contra a China é vista com cautela por vários setores. Na terça-feira, uma associação de varejistas americanos chegou a enviar uma carta a Trump pedindo que o presidente reconsiderasse a medida, temendo alta de preços. Mesmo empresários que reconhecem as violações da China na área de propriedade intelectual alertam que a medida pode causar mais danos que benefícios.

“Empresas americanas querem ver soluções para esses problemas, não apenas sanções com tarifas unilaterais” — disse John Frisbie, presidente do Conselho de Negócios EUA-China.

Alívio temporário. A folga temporária para as siderúrgicas brasileiras já havia sido considerada por Washington na quarta-feira, quando o presidente Michel Temer chegou a comemorar a decisão. A confirmação oficial, no entanto, só veio nesta quinta-feira. Em uma audiência no Senado americano, o representante comercial dos EUA, Robert Lighthizer, explicou que se trata de uma “pausa” na cobrança das taxas.

“O presidente Donald Trump decidiu dar uma pausa na imposição das tarifas em relação a esses países”, disse Lighthizer a parlamentares.

O decreto de Trump prevê sobretaxa de 25% sobre o aço e de 10% sobre o alumínio importados pelos EUA. Para os países que não conseguiram isenção, as novas regras valem a partir desta sexta-feira.

No Brasil, a isenção foi recebida com cautela por governo e representantes dos dois setores. Há, pelo menos, duas razões para isso. Uma é que permanece a ameaça de surto de importações desses produtos, pois haverá um aumento dos estoques excedentes no mundo. O outro é que as negociações tendem a ser bastante duras nos próximos 30 dias, com expectativa de barganhas e concessões em várias áreas pelo governo brasileiro.

“Pedimos de novo ao presidente Temer que ele telefone para Trump para solicitar a exclusão definitiva do Brasil da sobretaxa”, afirmou Marco Polo Lopes, presidente do Instituto Aço Brasil. (de O Globo)





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