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Wall Street perde US$ 3,58 trilhões apenas em dezembro

21/12/2018

Wall Street perde US$ 3,58 trilhões apenas em dezembro


Os mercados financeiros globais entraram no modo "queda livre" ontem, e estenderam as perdas registradas na véspera, naquele que foi o pior pregão para qualquer dia de decisão do Federal Reserve em sete anos.

Somando-se todas as baixas dos dias anteriores, dezembro caminha a passos largos para se tornar o pior mês para investidores do mercado de ações desde a grande crise financeira de uma década atrás.

Não por acaso, até o momento, nada menos que US$ 3,58 trilhões simplesmente evaporaram do mercado acionário dos EUA nos 20 primeiros dias do mês, um recorde desde pelo menos 1998.

Com a persistência do mau humor, alguns analistas já defendem que o mais longo período de altas ("bull market") da história do mercado americano está sepultado.

"À medida que caminhamos para 2019, estamos observando de perto os balanços, a questão comercial, o crescimento da China e os PMIs... E, para investidores à espera de algum alívio na virada do ano, não temos uma mensagem exatamente boa", alerta Michael Wilson, estrategista de ações do Morgan Stanley, citando que mais uma série de dados e informações sobre esses temas será divulgada já no começo do ano.

Na quinta-feira, o índice Dow Jones caiu abaixo do suporte psicológico dos 23 mil pontos. Na máxima, registrada há apenas dois meses e meio, o índice chegou a se aproximar dos 27 mil pontos.

No encerramento da sessão de ontem, o Dow Jones caiu 1,99%, aos 22.859,60 pontos. O S&P 500 perdeu 1,58%, aos 2.467,42 pontos. E o Nasdaq Composto recuou 1,63%, para 6.528,41 pontos.

Só em dezembro, o S&P 500 acumula perdas de 10,61%; o Dow de 10,49%, e, o Nasdaq 10,94%. Para o S&P 500, este dezembro já é o pior desde pelo menos a década de 1930 e caminha para se tornar o mês mais negativo desde o auge da crise financeira passada, cujo estouro recém-completou uma década.

Particularmente ontem, a reação negativa dos investidores foi atribuída à combinação entre receio de mais aperto das condições financeiras, de desaceleração maior do crescimento econômico, de tensões comerciais sino-americanas e de um "shutdown" (interrupção parcial dos serviços) nos EUA. Esse combo levou o índice de volatilidade VIX, considerado uma "proxy" do medo do mercado, saltar 11,53%, para o maior nível desde fevereiro.

Dentre os três principais índices de Wall Street, o Nasdaq teve o comportamento mais emblemático. O índice de tecnologia chegou ontem a acumular quedas de mais de 20% em relação ao pico de agosto, por alguns momentos operando no chamado "bear market", que marca o fim de um período de valorização. No fim, o Nasdaq terminou a sessão 19,5% abaixo do pico.

O colapso das ações de tecnologia é mais representativo porque foi esse setor que liderou a disparada das bolsas americanas no começo do ano. O Morgan Stanley diz que os múltiplos no segmento, apesar da queda recente, ainda estão vulneráveis a nova baixa, o que indica um mercado ainda com potencial para novos tombos.

"No atual momento, não faz muita diferença se um índice cai 15% ou 20%. O fato é que o sentimento do mercado está muito deprimido e com ares de 'bear market'", diz Ilya Gofshteyn, estrategista do Standard Chartered em Nova York.

"Mas ainda acredito que o movimento de agora se deve a tentativas de reduzir as perdas das carteiras. E, sendo assim, no começo do ano pode haver um fluxo mais comprador", pondera.

Outras classes de ativos sofreram fortes quedas na véspera. Em Nova York, o petróleo WTI com vencimento em fevereiro caiu 4,75%, a US$ 45,88 o barril -- menor patamar desde julho de 2017. Em Londres, o petróleo Brent (contrato de fevereiro) encerrou em baixa de 5,05%, a US$ 54,35 o barril, nível mais baixo desde setembro do ano passado.

A perspectiva de que o Fed em algum momento seja forçado a rever sua estratégia para a política monetária pesou ainda sobre o dólar americano. Um índice que mede o valor da moeda em relação a uma cesta de divisas internacionais caía cerca de 0,8% no fim da tarde de ontem, atingindo os menores patamares no intervalo de um mês.

A fraqueza do dólar catapultou os preços do ouro, já que o metal historicamente mantém correlação negativa com a divisa americana. Em Nova York, o contrato de ouro com vencimento em fevereiro encerrou o dia com alta de 0,92%, a US$ 1.267,90 a onça-troy.

O ouro foi impulsionado ainda por fluxos voltados à proteção, beneficiando-se de seu status de ativo seguro. A mesma corrida por "hedge" derrubou as taxas dos Treasuries às mínimas em oito meses.

O "spread" entre os "yields" dos Treasuries de dez e dois anos, visto como um termômetro do medo de recessão econômica, voltou a se aproximar da mínima em 11 anos. Quanto menor essa diferença, maior a preocupação do mercado.

"Os ativos de risco vão continuar enfrentando sérias dificuldades até que o crescimento econômico dê sinais de melhora", diz Zach Pandl, estrategista do Goldman Sachs.

Segundo o especialista, os recentes eventos corroboram a expectativa de dólar mais fraco nos próximos meses. Nas próximas semanas essa tese será, entretanto, testada por notícias sobre novos estímulos monetários na China e dados de atividade econômica na Europa. (do Valor Econômico)





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